Sexta-feira, 19.09.14

FARINHEIRA COM FAVINHAS DE VÍTOR SOBRAL

 

 

O novo livro Petiscos da Esquina, de Vitor Sobral, tem óptimas receitas, fáceis de executar na sua maioria. Resolvi experimentar uma e o resultado foi delicioso e a execução muito simples. Para facilitar ainda mais, usei favinhas baby de lata. Não ficaram tão bonitas, porque perdem o magnífico verde, mas são uma opção rápida e prática. Fiz uma outra alteração: substitui a cebola por chalota. Gosto do sabor meio picante. Tudo ficou pronto em menos de 10 minutos. Pode ser uma entrada, um petisco ou uma refeição, se lhe juntarmos uma boa salada de alface.

Aqui fica a receita do livro. 

 

Para 10 pessoas (fácil de reduzir para metade)
2 farinheiras em rodelas (tirei-lhes a pele)
400 g de favas peladas (usei 2 latinhas de favas baby para 5 pessoas)
150 g de tomate pelado, em cubos (usei tomate de lata já em cubinhos, bem escorridos)
100 g de pimentos assados, em cubos (usei pimentos assados de frasco)
2 dl de azeite virgem extra
0,5 dl de vinagre de vinho branco
cebola qb (usei 2 chalotas)
coentros picados qb
flor de sal qb
pimenta de moinho qb
Confecção
Core a farinheira com um fio de azeite e leve a terminar em forno quente (tirei-lhe a pele e corei só na frigideira, sem azeite, deitando fora a gordura regularmente e no fim).
Salteie as favinhas com um fio de azeite e tempere com flor de al e pimenta e reserve.
Envolva a cebola, o tomate, o pimento e os coentros com o restante azeite e vinagre, rectifique os temperos e deixe o preparado repousar 30 minutos.
Tempere as favas com o mesmo.
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conversasamesa às 10:48 | link | comentar | partilhar | favorito
Quinta-feira, 18.09.14

APRENDER A PETISCAR COM VÍTOR SOBRAL

 

 

 

Vítor Sobral lançou mais um livro na semana que passou. Chama-se Petiscos da Esquina e reúne receitas das várias tascas e quitandas que o chef tem espalhado pelo mundo lusófono: Luanda (Quintana da Esquina) e São Paulo e João Pessoa, no Brasil. O chef faz questão de acentuar no livro que este é o resultado do trabalho de toda uma equipa de já três dezenas de pessoas. 

O almoço comemorativo do lançamento foi um desfilar de bons petiscos. Cozinha de valorização dos bons produtos, tendo o condão de os realçar sem desnaturar.

 

No prefácio do livro, muito bem escrito, Edgardo Pacheco conta como Vítor Sobral foi pioneiro em fazer a viragem para a comida "de tasca" em Portugal, depois de ter sido pioneiro na introdução da modernidade no fim da década de 1980, princípio de 90. No fim deste post encontra também a história de Vítor Sobral contada em 2009 por mim, em O Grande Livro dos Chefs. 

 

 

 

 

 

 

 

Vítor Sobral no meu O Grande Livro dos Chefs, publicado em 2009

 

"Em 1985, com 18 anos, Vítor Sobral ingressou na Escola Hoteleira do Estoril, no curso de Food & Beverage. O seu primeiro trabalho foi no Iate Ben, na Parede. Com 22 anos foi convidado para o Alcântara Café (1989 a 1992), um restaurante «diferente» cuja arrojada decoração em ferro, espelhos e veludos vermelhos esteve a cargo de António Pinto. Ao lado, a discoteca Alcântara Mar. A escolha não era muita, nessa época em que se afirmava a 24 de Julho. É neste restaurante que se começou a vulgarizar em Portugal o serviço à americana, em enormes pratos que faziam a diferença. Vítor foi pioneiro na introdução de produtos invulgares, como o salmão fresco, vindo da Bélgica, e de uma grande diversidade de ervas aromáticas biológicas, fornecidas por Maria José Macedo, da Quinta do Poial, em Azeitão, a ele e ao chef Ziebell.

Entre 1992 e 1993, Vítor foi sócio e chefiou a cozinha do Gare Tejo, o antigo Gare Marítima do Michel, onde trabalhara o Fausto. A sua passagem pelo Cais da Avenida (actual Ad-Lib), o restaurante do hotel Sofitel, permitiu-lhe evoluir na carreira através da formação contínua que esta cadeia lhe proporcionou. Neste período do Sofitel (1993/1995), Sobral não passou despercebido aos nossos críticos gastronómicos. David Lopes Ramos recorda: «No Sofitel, Sobral servia uma cabidela de frango, mas vinha embrulhada em papel de alumínio e em porções individuais, e isso fazia toda a diferença.»

José Quitério lembra-se de o ver «muito miúdo, assomar à porta da cozinha e olhar para as mesas, mas só assomar». Foi aqui que o chef criou uma porção de inovadoras entradas, frias e quentes, que mais tarde levaria para a Cervejeira Lusitana (1997/1999) e que se tornariam, em grande parte, responsáveis pelo enorme sucesso que esta granjeou. Da Cervejeira recorda a fantástica cozinha, equipada com todos os aparelhos mais modernos e uma brigada de 80 pessoas.

Porém, é a sua passagem pelo Café-Café (1996/1997) que lhe traz a maior visibilidade, porventura por um dos sócios ser o Herman José. Houve alturas em que se tinha de reservar mesa com quinze dias de antecedência. Essa fama fez-se sentir quando Sobral saiu da Lusitana para o Clube Bela Vista e foi seguido de imediato pelos seus clientes já fidelizados.

A sua ida para o Terreiro do Paço, numa parceria com o Grupo Lágrimas Hotels & Emotions, é saudada pelo crítico Duarte Calvão: «Ver o Vítor Sobral cozinhar assim faz-me ter orgulho na nossa cozinha e esperança no seu futuro.»

O actual movimento conhecido por bistronomics, bistronomia segundo Pau Arenòs, traduz uma combinação de cozinha de bistro e de gastronomia, com uma preocupação económica à mistura: alta cozinha por pouco dinheiro. Este movimento começou nos EUA com a abertura de um grande espectro de restaurantes sob o chapéu de chuva do mesmo chef. O projecto de aliar a sofisticação da alta cozinha aos preços acessíveis já há muito o pratica Vítor Sobral. O Terreiro do Paço tem várias «mesas» para diversos tipos de ocasiões e de clientes.

A valorização da cozinha e dos produtos portugueses, sobretudo o azeite, tem sido uma luta constante para este chef tão mediático. Tal como o espírito viageiro do nosso povo sempre nos abriu as portas a outras culturas e a outras comidas, também a sua cozinha aceita e agradece as influências de África e do Brasil."

 

Fotos do almoço de petiscos na Cervejaria da Esquina

 

 

 

 Não podia terminar sem a foto de um dos braços direitos do Vítor Sobral, até porque gosto muito dele: o Hugo Nascimento. 

 

 

 

 

Obrigada ao Gonçalo Coelho pelas fotografias

conversasamesa às 17:44 | link | comentar | partilhar | favorito
Domingo, 07.09.14

GRANDES ALHADAS NAS ALHEIRAS

 

Anda muita gente preocupada (incluindo eu) com a semântica da alheira. Será que um produto com IGP, protecção recentemente conquistada pela Alheira de Mirandela, pode emprestar o seu nome a um produto que leva bacalhau (alheira de bacalhau), só legumes (alheira vegetariana) ou até soja (alheira de tofu)? Afinal estas questões linguísticas revelam-se completamente dispiciendas face ao verdadeiro problema que aflige as alheiras e que também nos deveria afligir. E esse problema foi revelado num recente estudo da DECO sobre alheiras industriais, é surpreendente e pode traduzir-se numa palavra nada equívoca: logro.

Aqui fica o link para esse estudo, que para qualquer consumidor de enchidos será interessante ler, uma vez que contém observações sobre os teores nutricionais sobre os quais não me debruçarei aqui - http://media.deco.proteste.pt/download/8f2e0d6d72ac1fc93d3b033232e56c2d08a9e409/tmp221f.pdf

 

Nas alheiras de caça, que custam o dobro das outras em média, confrontamo-nos com o chamado gato por lebre. Isto ainda por ora em expressão figurada, porque na realidade é mais frango, porco ou vaca por lebre, faisão ou perdiz. Vejamos apenas alguns exemplos referidos pela Deco:

 

“No produto de caça Terras do Vento Leste não detetámos perdiz, como anunciado. Mas não é tudo: para uma alheira de caça, o frango representava quase 70% das carnes utilizadas. O pato vinha indicado com 12%, mas só contribuía para 1% do total das carnes.”

 

“Na alheira Artefumo, o coelho e o faisão referidos no rótulo eram uma miragem. O porco representava a quase totalidade da carne analisada (95%), com o veado nos 5 por cento.”

 

“Também a Casa da Prisca de caça não referia frango, mas este constituía mais de metade do total de carnes encontrado. O veado que, em conjunto com o javali, aparecia indicado como ingrediente principal, afinal só representava 5% do total da carne.”

 

Como vemos, há carnes que são mencionadas e das quais nem vestígio existe. Quando uma alheira de caça é constituída em termos cárnicos por quase 70% de frango, será preciso dizer mais?

Em relação às alheiras normais, a confusão com a bicharada é mais que muita. “Por exemplo, na alheira tradicional Casa da Prisca, descobrimos frango quando o rótulo apenas indicava conter porco.”

“A alheira Beira Lamego anunciava conter aves, mas só detetámos porco. A alheira Fumadinho não mencionava vaca, mas as análises revelaram ser a principal carne incorporada (49% das espécies).”

 

Estes são alguns dos exemplos, mas no estudo há muitos mais. Por outro lado, foram também detectados “vários problemas na higiene e conservação.”

 

Louvável continua a ser a intervenção da DECO. Quanto à ASAE, talvez esteja mais preocupada em saber se as alheiras foram mexidas com uma colher de pau.

 

 

 

conversasamesa às 18:15 | link | comentar | partilhar | favorito
Sábado, 06.09.14

CAVACAS DAS CALDAS: TOMA LÁ PARA O LIMÃO

É muita antiga a tradição da manufactura de loiça nas Caldas da Rainha. Em meados do século XIX, vários artesãos, entre eles a célebre Maria dos Cacos, tornaram a louça das Caldas conhecida em todo o país, sobretudo graças a uma particular técnica de vidrado que ainda hoje a caracteriza. Nos finais do mesmo século, ali abriu uma das primeiras escolas industriais do país dedicada ao ensino da cerâmica. Teve professores célebres, entre eles Rafael Bordalo Pinheiro, que genialmente revolucionou a imagética da loiça. Esta semana fui até à fábrica Bordalo Pinheiro que chegou a estar à beira da falência, mas foi felizmente comprada. Todo o edifício, onde também funcionava a fábrica, está em mau estado, mas ainda recuperável. O salão de exposição está muito pobre, quer em termos de exposição como de peças, mas há sempre coisas bonitas e baratas, sobretudo no outlet.

A zona da feira da fruta está em obras, o mercado está localizado mais acima. Tudo está em obras, mas há edifícios lindíssimos muito mal tratados. Lá fui eu na senda da doçaria, à procura das célebres cavacas, os beijinhos e as trouxas de ovos, indispensáveis às gentes aqui do oeste que se deslocavam para as termas, em geral finda a apanha da pêra rocha. A pastelaria Machado tem mais de um século de existência e uma lindíssima frontaria em azulejos vidrados à maneira das Caldas, abastardada pela estrutura que penduraram sobre ela. O interior precisava de algum brilho do vidrado da loiça, tudo parece muito baço, não se valoriza o que é antigo. As montras, bonitas, estavam desleixadas. Provei o que havia. As trouxas eram frescas e boas, com as placas de ovo bastante inteiras, como compete, e uma boa calda. Os beijinhos, feitos em massa de choux, também muito frescos e bons. As cavacas, essas, é que não gostei. Estavam secas e muito perfumadas com limão, que não faz parte da receita original. Não sei por que razão gostam de introduzir ingredientes vindos do nada e que só descaracterizam as receitas tradicionais, sem nada lhes acrescentar de bom. Não sou contra a mudança, pelo contrário, mas para pior não. " src="http://c6.quickcachr.fotos.sapo.pt/i/B500155f6/17375119_JLu9a.jpeg" /></a>

Numa outra pastelaria vi esta versão foleira, sem qualquer mais-valia de sabor, do símbolo caldense. nada comparável ao que fazem em Amarante com os São Gonçalos.
conversasamesa às 18:38 | link | comentar | partilhar | favorito
Domingo, 31.08.14

ESTAMOS NA ÉPOCA DO TOMATE





Passei o Verão dos meus 18 anos a aprender alemão em Innsbruck, uma lindíssima cidade austríaca. Estava albergada em casa de um casal já de uma certa idade. Ela era uma mãezoca. Ele impunha respeito. Tinha combatido pelos alemães, claro, na Segunda Guerra e perderá uma perna. Porém, fazia a vida normal e deslocava-se para todo o lado de bicicleta. A minha vida era o paraíso. Passeava-me pela Áustria num Fiat 500 de um colega da escola. Fazíamos questão de ir regularmente a Salzburgo ver as toiletes à entrada da Ópera (nunca conseguimos bilhete para nenhuma...) acabávamos a beber café vienense com a coroa de natas e a comer Mozartkugeln, umas bolas de chocolate com massapão de pistácio.
Em casa o jantar era sempre igual, todas as noites: tomate cortado em gomos com tiras de queijo. Nunca me cansei. Hoje, munida de uns bons tomates apanhados na horta da Quinta da Granja, no Bombarral, resolvi reviver esses jantares. Aqui está a foto. Quando o tomate é bom, está na época e é de chão, gosto de o comer sem nada. Nada mesmo, nem sal nem azeite. Hoje juntei-lhe dois queijos, um Gouda ( os holandeses dizem "Rrruda" e um Manchego. À vossa...


conversasamesa às 19:27 | link | comentar | partilhar | favorito
Sábado, 23.08.14

HUMM



Acho que é opinião comum que há demasiados progamas de cozinha, desde os concursos às receitas. Oiço até dizer que, em geral, se ouve falar muito de cozinha e cada vez se come pior. 

Discordo. Não há dúvida que se fala ultimamente muito de cozinha, desde que os espanhóis a elevaram a arte. Vê-se cozinha como se vê futebol, pelo movimento e não para aprender a jogar. Daí que os programas em que supostamente se ensinaria a cozinhar sejam shows, em que se combina uma mistura de porn food com crime food, em que os apresentadores encarnam personagens pouco credíveis, com famílias maravilhosas ou vidas holiodescas. (A talhe de foice, aproveito para dizer que gostei de ver o programa da Filipa Gomes, o Prato do Dia. Ela conseguiu criar um personagem, por vezes um nadinha exagerado nos ademanes, e tudo o que cozinha tem lógica e boa apresentação. Já não gosto tanto de a ver no programa da camioneta). A um ritmo diabólico em que mal conseguimos apreender a sequência de imagens, só temos olhos para ver os legumes a serem esfaqueados, o limão a escorrer em fio, ao liquidificador a triturar brutalmente coisas coloridas ou, last but not least, o decote da Nigella ou da sul-africana Siba. No fundo, é tudo pulsões primárias, ficam bem juntas. Discordo e até acho que devia haver mais programas, mas daqueles em que qualquer pessoa interessada pode aprender muito, como era o Sentido do Gosto, de José Bento dos Santos. Deixou muita gente com pena de não o ver mais na televisão. 

Embora muito raramente veja um concurso de cozinha, às vezes deito o olho a um programa de receitas ou a um show, tipo Bourdain. Uma coisa que me irrita é o constante HUMM, está uma delícia, cara de experiência extrema de felicidade mística, quais santas teresas de Ávila trespasadas pela espada. Ainda não perdi a esperança de ver um desses provadores ou cozinheiros a cuspirem tudo cá para fora, a dizerem uma boa asneira e a fazerem a cara da impagável Ina Garten, a condessa descalça.   



conversasamesa às 17:11 | link | comentar | partilhar | favorito
Sexta-feira, 15.08.14

MAIS SUGESTÕES PARA O ALGARVE

 

 

 

Vila Vita, Ocean: com o chef Hans Neuner a fazer uma cozinha do mundo, técnicas perfeitas e muito sabor. Para ocasiões especiais. Convém chegar cedo e dar uma volta no parque e espreitar a praia.

Só jantar


Fechado às terças e quartas-feiras.
As datas de fecho semanal do restaurante Ocean podem variar.

Porches

 

Vila Lara: para não perder os fabulosos BBQ do chef Tiago Bonito (TERRACE GRILL) , sobretudo os maravilhosos pratos de peixe. A vista é deslumbrante. No restaurante do hotel, aconselho os soufflés doces, que Tiago faz na perfeição.

Porches

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Pizzaria Casavostra: óptimas pizzas num espaço muito agradável. Reserva indispensável.

Almancil

 

 

Moiras Encantadas: o chef Rogélio faz saborosa cozinha tradicional algarvia com um toque moderno.

Rua Miguel Bombarda, n.º 2

8200-495 PADERNE Albufeira  

TEL/RESERVAS: 289 368 797

 

Gigi: para comer bem peixe e marisco num ambiente de praia. Só ao almoço e está sempre cheio.

Praia da Quinta do Lago

 

 

 

 

Pezinhos na Areia: mesmo en cima da areia da Praia Verde, Castro Marim. Vale pela comida mas também pelo ambiente.

Praia Verde

 

 

 

 

 

 

conversasamesa às 17:30 | link | comentar | partilhar | favorito
Domingo, 10.08.14

SUGESTÕES PARA COMER BEM NO ALGARVE

 

 

Noélia e Jerónimo (Cabanas de Tavira)

cozinha tradicional algarvia

http://conversasamesa.blogs.sapo.pt/bene-trovato-noelia-68901

 

São Gabriel, Leonel Pereira (Almancil)

cozinha contemporânea

http://conversasamesa.blogs.sapo.pt/51403.html

 

 

Gourmet natural - uruguaio, sobretudo carne (Vale de Lobo)

http://conversasamesa.blogs.sapo.pt/49530.html

 

 

Jardim da Cerveja (Porches, perto do Vila Vita)

http://conversasamesa.blogs.sapo.pt/25654.html

 

 

Monte da Eira tradicional (perto de Loulé)

http://conversasamesa.blogs.sapo.pt/21864.html

 

VPs, internacional, (Quinta do Lago)

 http://conversasamesa.blogs.sapo.pt/47758.html

 

Outros

António tá Certo - peixe grelhado ao pôr-do-dol sobre a praia do Garrão

 

EStaminé - ilha Deserta (Barreta) - peixe e bivalves

 

 

 

conversasamesa às 11:14 | link | comentar | partilhar | favorito
Sábado, 09.08.14

BENE TROVATO NOÉLIA

 Muxama de atum sobre gaspacho em creme

Camarão da costa algarvia com tomate e abacate

 

 

 

O professor que mais admirei em toda a minha vida foi o padre Manuel Antunes, que me deu História da Cultura Clássica. Sábio, um homem como deve ser, um professor extraordinário, dava aulas no maior anfiteatro da Faculdade de Letras, sempre a abarrotar de gente para o ouvir. Ele costumava citar uma frase a que sempre achei muito graça e que se pode aplicar muito bem à cozinha “Si non è vero è bene trovato”. Já cá voltamos.

O Algarve tem todas as cores à mesa. Enquanto lá para o Norte, os pratos se enchem dos castanhos e cinzentos do Outono/Inverno, com o centeio do pão, a castanha ou os cogumelos, cá para o Sul, temos o amarelo do milho, o vermelho do tomate,  do pimento e do marisco, os brilhos do peixe.

A semana passada almocei no restaurante Noélia e Jerónimo, em Cabanas de Tavira. Na cozinha está sempre a Noélia, trabalhadora incansável, presença bonita e simpática, a fazer felizes os comensais ao colocar nos pratos a cor e os sabores do Algarve e do Mediterrâneo. Na esplanada, avistei a ria e senti a brisa do mar. E comi muito bem.

 

 

 Atum braseado com arroz de amêndoa, limão e gengibre

 

 

Os produtos são bons e bem cozinhados. A cozinha é uma mistura de culinária algarvia com a criatividade da Noélia e muitos tons de Mediterrâneo. Noélia serve alguns pratos directamente da tradição, como por exemplo, a raia alhada. Encontrar quem faça bem os pratos tradicionais já é razão de sobra para ficar feliz. Mas confesso que o que mais me agradou e o que faz a diferença, aquilo que nos leva para o nível seguinte, é que a Noélia é capaz de pegar na matriz tradicional algarvia e, sem a desvirtuar, criar novos pratos muito saborosos, mais ao nosso gosto actual, eu diria, mais mediterrânicos. Mais mediterrânicos, por exemplo, porque têm mais legumes. Mais modernos porque se reduziram os tempos de confecção do peixe e do marisco. Tudo isto se pode fazer sem lhes alterar a tal matriz. Deixemos a raia alhada como está, só com a batatinha. É a tradição, deixem-na existir. Mas porque não pegar no conceito e transformá-lo num prato cheio de sol? E a Noélia tem toda a criatividade para o fazer.

 

 

 

Polvo frito com batata-doce

 Biqueirões fritos

 

 

 

 

 

 

 Raia alhada

 

 

 

 

 

Voltemos então ao padre Manuel Antunes e ao «Si non è vero, è bene trovato». Esta frase define os melhores pratos da Noélia, aqueles em que ela consegue sair da tradição sem trair a matriz. Como o arroz de amêndoa, limão e gengibre. Não há gengibre no Algarve? Pois não há umas centenas de anos nem tomate havia. A cataplana se calhar nem é de origem algarvia e não se sabe se terá mais de 60 ou 70 anos.

Força a vante Noélia.

 

(Inexplicavelmente, esqueci-me de fotografar um dos pratos que mais gostei, o arroz de limão com corvina e amêijos. Ou talvez se explique. Aliás explica-se. Os pratos que eu mais gosto, tendo a esquecer-me de fotografar porque queri logo prová-los... A sobremesa foi à base de figos: uma torta e um creme, que eu acho que ficam bem combinados.)

 

Noélia e Jerónimo

Av. Ria Formosa Edif Cabanas Mar (é a avenida marginal)

8800-591 Cabanas de Tavira

Tel. 281370649

 

Nota:

Irritantemente para quem quer reservar, o telefone está muitas vezes desligado. É difícil conseguir mesa. O meu conselho é que, agora no Verão, vá ao almoço. Se  quiser arriscar o jantar, apareça cedo.

 

 

 

 

conversasamesa às 09:55 | link | comentar | partilhar | favorito
Domingo, 03.08.14

NICARÁGUA OU A FORÇA DO TRIVIAL

Miami tem o bom da América "templado" pelo bom da América Latina. Aqui é preponderante a influência cubana, Havana fica a uns poucos 90 km. Vagas de cubanos têm chegado ao longo do tempo, sendo a mais conhecida a dos Marielitos, que nos anos 80 saíram de barco do porto de Mariel com o beneplácito de Castro, que os apelidou de "escória".

Na rua domina a mulher latina, exibindo orgulhosamente os generosos seios e bumbuns. Numa noite húmida com uma leve brisa tropical, um puro sabe pela vida.

É vulgar nos restaurantes ou nas lojas dirigirem-se-me em espanhol, ou até em português, porque, além de cubanos, Miami está repleta de outros latino-americanos, nomeadamente brasileiros. Esta a razão que, nos poucos dias que lá passei esta semana, me levou a dedicar grande parte do meu interesse em matéria de comidas a um destes países, a Nicarágua.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

No meio de uma das maiores artérias da cidade, a Flagler Street (baptizada com o nome do homem que fundou a Standard Oil e do caminho de ferro que possibilitou o desenvolvimento de Miami) fui à procura da Little Nicaragua, mais especificamente dos seus restaurantes típicos, as fritangas.

O nome deriva do facto de os fritos serem muito comuns nestas casas, uma espécie de cantinas situadas habitualmente em pequenas plazas, os aglomerados de lojas ao ar livre que acompanham sempre os bairros habitacionais. As fritangas podem ser grandes ou pequenas, mas têm um balcão onde as várias comidas estão dispostas para escolha. Algumas estão mais vocacionadas para vender para fora, outras para comer no local,mas todas elas têm uma forte componente de convivialidade.

 

 

 Nacatamal

 

 

 

 

 

 

 

 

 Frituras diversas: batata doce, banana, enchidos

 

 

 

 

 

 

Para encurtar razões, digo-vos que fiquei fã depois de ter ido à Fritanga Amerrisque. Tive pena de não ter experimentado os pratos todos. Os meus olhos gulosos conduziram-me de imediato para a língua de vaca guisada, presos no molho espesso dos sucos da carne e do tomate e na textura semi fibrosa semi gelatinosa das fatias de tamanho irregular. Para acompanhar, mandioca cozida, embora o alimento base seja o milho, uma herança indígena. A doçura da mandioca abre os braços ao molho da língua e atenua-lhe a acidez do tomate. Depois não pude recusar uns lindíssimos embrulhinhos de folha de bananeira, os nacatamales, que escondem uma reconfortante mistura de carne de porco,  pimento, cebola, tomate, arroz, baaa, malagueta e passas sobre uma camada de masa de milho.  Leva horas a sua preparação.

 

 

 

 

 

 

 

 

É uma das combinações vencedoras, resultantes, em geral, da sobreposição ou da fusão de várias cozinhas, que se mantêm há muitas dezenas de anos inalteradas, ou com poucas alterações, precisamente porque reúnem produtos e gestos que passaram a pertencer aos mesmos ecossistemas. O resultado é uma falsa sensação de simplicidade que me (nos) atrai sem apelo nem agravo. Este tem sido o segredo do sucesso da cozinha do Peru e de outros países das Américas: a promoção dos melhores produtos confeccionados no apuro das maneiras tradicionais. Cada vez me convenço mais que este é o nosso caminho. Com a variedade de produtos e pratos que temos no nosso país, com a riqueza do nosso trivial, com ou sem os croquetes,  imaginem o que nós podemos fazer se resolvermos fazer bem feito, optando pelos bons produtos e pelas maneiras tradicionais de os preparar. 

 

 

 

 

Raspando o gelo
O gelo raspado no copo

 

 

 

 

 

 

 

 

A cobertura de dulce de leche 

 

 

A loja super colorida
conversasamesa às 20:28 | link | comentar | partilhar | favorito

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