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Conversas à Mesa

Três dias em Praga (Agosto 2011)

Cozinha não identificada

 

Quando fui a Praga, nos últimos dias de Agosto 2011, havia uma insuportável vaga de calor na Europa Central. A capital checa estava enxameada de turistas, uma espécie de super-convenção da gente mais feia do mundo, aos quais se juntava muito alcoolismo e mendicidade. Bem feita para mim, que nunca deveria ter ido em pleno Verão visitar uma cidade, mas estava cheia de saudades da minha filha que já abalara há quase um mês para um interrail e tínhamos combinado um encontro para lavar a roupa e fazer festinhas.

 

A minha expectativa em relação à cidade era imensa. Praga é uma espécie de Tróia desenterrada: nela convivem bem construções em camadas de todas as épocas, desde o século X em diante. Como não foi bombardeada, mantém-se intacta, à excepção de um pequeno engano de alguns aviões aliados que tomaram Praga por Dresden e aliviaram carga sobre uma pequena zona à beira-rio. Muitos anos depois aí foi construído um moderníssimo prédio desenhado por Frank Gehry (filho de judeus polacos), o “Fred Astaire e Ginger Rogers”, que lembra efectivamente uma dança deste par, com a saia rodada da Ginger em pleno movimento e a incrível elegância e leveza do Astaire. Fiquei com a ideia que não é muito amado pelos locais.

 

Mas, por mais voltas que dê, acabo sempre nas coisas da mesa. A minha expectativa em relação à gastronomia checa era quase nula, calculava eu que não passasse muito dos habituais goulashes centro-europeus com pretzels. Tinha lido acerca dos knedle, uns pastéis de massa de batata que servem geralmente de acompanhamento, e dos ceske trdlo, canudos de massa frita enrolados em açúcar e canela, e nada mais tinha encontrado de peculiar. In loco, confirmou-se aquilo que eu pensava: a cozinha da República Checa não é identificável por nenhum prato ou produto. E esta é a mais triste afirmação que se pode fazer acerca de uma cozinha.

 

Havia que dar de comer a 2 raparigas famintas e eu não tinha qualquer vontade de usar a enorme cozinha do apartamento de sala e 3 quartos que tinha alugado num quarto andar, a 50 m da Old Town Square (ver em baixo).

Após várias diligências e muita fome, abancámos para almoçar num grande espaço de seu nome Olympia (Kolkovna Olympia, Vítezna 7), gabado pelos locais por servir comida checa. O cabrito assado era uma carne que de origem deveria ter sido agradável, uam vez que era cabrito de leite, mas que os reaquecimentos (vários) tinham destruído. Intragável.

Na rua, perto da hora das refeições, cheira geralmente a guisados, num misto de cebola e de bispo, aromas pouco convidativos para entrarmos em qualquer restaurante. Nem as pizzarias cheiram a massa de pão em forno de lenha, antes emanam estes repugnantes odores. A grande maioria dos restaurantes anuncia-se híbrido: “Comida checa e mediterrânica”, “Comida italiana e checa” lê-se em letras garrafais sobre as portas. Nem na mitologia grega se juntaram numa só unidade criaturas tão díspares. Empalideçam centauros e faunos. Não fosse só o cheiro, as fotos dos pratos seriam suficientes para nos impedir de chegar sequer perto.

 

 

A praga da água em Praga

Após a má experiência do Olympia, decidi optar pelos italianos. Ravioli, pizza, saladas foram o nosso alimento de 2 ou 3 refeições. Num pequeno restaurante perto da ponte Karlov, comeram-se uns aceitáveis ravioli (Casanova) mas tivemos uma surpresa na conta: o item mais caro era a água. Tínhamos bebido 2 garrafas grandes a 8 euros cada uma, logo 16 euros de água...Ao nosso direito à indignação respondeu o empregado que o precioso líquido era importado. À nossa pergunta seguinte, claro, isso mesmo, quanto custa a água local, respondeu que não tinham. Viemos mais tarde a perceber que também não dão água da torneira em lado nenhum. A solução pode passar por beber cerveja, de preferência da marca Gambrinus, uma das mais em conta e a preferida dos checos.

 

 

À hora certa, há um tocador de corneta vivo e vários bonecos que desfilam no relógio astronómico (século XV), na parte velha da cidade (Stare Mesto).

 

A alegria do Allegro

Situado num pequeno enclave dentro de Praga, numa das pontas da ponte Karloff, está o hotel Four Seasons e o oásico restaurante Allegro, detentor de 1 estrela Michelin (o único na República Checa).

Deixei-o para o fim da estadia, para sair com menos “boca de lacaio centro-europeu”.

Almocei no terraço, a ver o rio, a catedral e o castelo. E um balão que sobe e desce com dois turistas numa espécie de baloiço, possibilitando uma vista decerto bastante abrangente da cidade. Se é perigoso, não sei. Enquanto lá estive, os que subiram, desceram todos.

 

 

A esplanada do Allegro sobre o rio Vltava, avistando-se o balão que sobe e desce, o castelo e a catedral de S. Vito.


A entrada do Hotel Four Seasons.

 

Foi um almoço muito agradável e com sabores muito frescos, que fizeram face ao esbraseante calor. O chef italiano Andrea Accordi faz uma cozinha mediterrânica extremamente refrescante e leve. O menu de almoço prix fixe Allegria é acessível e consta de uma entrada, prato principal e sobremesa com possibilidade de escolha a 850 Czk (cerca de 34 euros) ou uma opção de  dois pratos por 650 Czk (26 euros). Óptimos preços, sobretudo tendo em conta que incluem café e ÁGUA!

A minha escolha foi para umas curgetes crocantes recheadas com mozarela, um lombo de salmão selvagem com espargos e um granizado de toranja rosa e manjericão, parfait de ananás e banana e gelado de fava tonka. A combinação dos doces e ácidos da sobremesa era notável e a sua frescura rematou de forma alegríssima a única boa refeição que fiz em 3 dias.

 

Allegro - Four Seasons Hotel Prague

Veleslavinova 2 a

+420 221 426 880

 

A não perder em Praga

 

Aconselho vivamente a fazer o tour do autocarro vermelho. O bilhete custa cerca de 22 euros e permite ver as coisas mais importantes da cidade ao longo de 48 horas. A Cidade Velha só se pode ver a pé.

 

A Ponte Karloff

Uma ponte é sempre um traço de união. Entre duas margens, dois locais ou até duas pessoas, como é o caso desta: se a atravessarmos, iremos encontrar o amor. Está sempre cheia de gente para cá e para lá, provavelmente à procura dele. Para garantirmos o regresso a Praga ou para satisfazer um desejo basta tocar na estátua de São João Nepomuceno. É fácil de encontrar, é onde estiver a fila. A ponte é curta e liga a Mala Strana (a zona onde se situa o castelo e a catedral de S. Vito) à Praça da Cidade Velha. A pé, de manhã ou ao fim da tarde.

 

Cidade Velha

 

É um prazer fazê-la a pé, partindo da Praça do relógio astronómico (à hora certa, dá música, mas tudo um pouco pífio). Num dos prédios desta praça há uma placa que assinala que ali se reuniram Einstein, Kafka e Max Brod. Há um café e uma livraria Kafka, mas o museu Kafka é do outro lado do rio. A pé, a qualquer hora.

 

 

Bairro Judeu (Josefov)

O antigo bairro Judeu deu origem à Na Príkope, a lindíssima rua das compras, recheada das lojas mais chiques dos costureiros. Muitas sinagogas (a Espanhola é a mais moderna e o nome advém-lhe da arquitetura mourisca) e museus e um impressionante cemitério com dezenas de milhares de mortos enterrados por 12 camadas numa minúscula. área. A pé.

 

Castelo e Catedral de São Vito

A visitar no tour de autocarro. Se não quisermos pagar as várias entradas, ficamos apenas com uma ideia do espaço (é ali que viveu Václav Havel) do castelo, que se parece mais com um palácio, e da catedral de S. Vito. Num tour e a pé.

 

Praça Venceslau

Indissoluvelmente ligada à primavera de Praga, esta praça merece ser visitada em homenagem a quem por lá lutou e a quem por lá morreu.

 

Onde fiquei

Old Town Square Apartaments

Stupartská 9

11000 Praga

República Checa

3 quartos, sala, cozinha e 1 casa de banho e 1 WC (tudo gigantesco e decorado no IKEA em tons de branco) + ar condicionado (imprescindível no verão) - 110 euros. Tel: 00420 775 779 577 (Teresa Sulova)

Pode ser reservado directamente ou através da internet. Tratam também de transfer para o aeroporto e lá estava o motorista no aeroporto de cartaz na mão apesar de o avião ter chegado atrasado.

Limpo, super-central (a 2 minutos a pé do relógio astronómico), calmo e dá para 8 pessoas. Deseja-se que pelo menos algumas destas não bebam água.

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