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Conversas à Mesa

Protejam o pastel de nata, espécie ameaçada, ou a cereja no fundo do bolo

 

 

 

Mais um produto que quer vingar através da apropriação de um nome que já representa um valor adquirido, ainda por cima vindo da Escola de Hotelaria do Fundão. Depois do caso emblemático das alheiras, que actualmente se pretendem de soja, de bacalhau, vegetarianas (embrulhadas em material transparente sintético) e que são um verdadeiro tiro no pé para os respectivos produtores uma vez que desvalorizam o seu produto original, a simplesmente alheira, surge o caso do pastel de nata de cereja. Caso não virgem, visto que já existe o pastel de nata de chocolate.

O raciocínio é o seguinte: temos cerejas para promover no Fundão, porque não aproveitar o pastel de nata cujo nome já é marca no estrangeiro para fazer um híbrido? E porque não meter cerejas no Vinho do Porto, que já está consagrado no exterior? Ou já agora para fazer cruzamentos entre sardinhas ou porcos de raça alentejana e cerejas?

O valor do nosso pastel de nata reside sobretudo em dois elementos que fazem a diferença em relação aos bolos similares do resto da Europa: a simplicidade da custarda do recheio e o tipo da massa que o envolve. Lembro-me bem quando era miúda da existência do “bom bocado”, uma espécie de primo muito europeu do pastel de nata com uma casquinha mole de massa quebrada e um recheio semelhante mas com sabores a citrinos e com eventuais cerejas enterradas. Coitado, tinha tudo o que nós não queremos num pastel de nata: a massa mole, quando o que é bom é sentir o crocante, os sabores acitrinados do recheio, quando o que nós queremos num pastel de nata é mesmo a neutralidade do sabor a “nata”.

Se quiserem mesmo estragar o pastel de nata e dar cabo das maravilhosas cerejas do Fundão façam o tal híbrido, exportem-no com o nome de pastel de cereja ou de pastel do Fundão, mas não mexam com o nosso pastel de nata.