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Conversas à Mesa

Comeres ribatejanos em Alpiarça no 5 de Outubro

 

 

 

 

 

 

Faz hoje 102 anos, José Relvas proclamava o fim da monarquia na varanda dos Paços do Concelho de Lisboa. Que melhor maneira de homenagear a República do que almoçar em Alpiarça, na terra onde viveu este ribatejano? E quem diz Alpiarça, para mim diz A Casa da Emília.





Há 14 anos que este restaurante cuidado aos mais ínfimos pormenores é propriedade de Mário João Freilão, que tem a arte de receber tão bem os clientes que nos faz sentir em casa. A sala de jantar encanta com as mesas impecavelmente cobertas com toalhas alvas bordadas e encorpadas com goma, o aparador antigo, a jarra Bordalo Pinheiro com rãzinhas, os jarrinhos da água. A cozinheira é a mulher do Sr. Mário João, que deu o nome ao restaurante e nos cativa com pratos de cozinha ribatejana.


 

         

 

 


Para começar nunca aqui venho que não coma os pastéis de massa tenra, de recheio impecavelmente temperado, ligeiramente desfiado, sem as indesejáveis carapinhas da carne moída, a massa fina como compete e o balãozinho de ar.

 



 

 



Depois, dois pratos de borrego (se fosse num desses restaurantes a pingar ao moderno talvez propusessem na linguagem rebuscada das ementas um "dueto" de borrego ou "borrego em duas declinacões"). Ora eles eram mas é costeletas panadas com arroz de ervilhas e cenoura e um guisado.



 

 

 


As costeletas, impecáveis com o seu arroz carolino, eram tradicionais nesta zona nos piqueniques estivais do dia da Ascenção de Nossa Senhora. Também costumavam aparecer no fim dos bailaricos, quando o adiantado da hora já trazia um ratito, levadas numa cestinha pelas mães, que, de cátedra, vigiavam as filhas que nem dragões.



 

 



O guisado de borrego chama-se nesta região borrego do casamento. Era o prato servido ao pequeno-almoço do dia do casório pelos pais dos noivos, na casa comunitária onde tinha lugar a festa e, mais tarde quando deixou de haver esta instituição, em casa do noivo e da noiva. Estava muito bem, partido em pedaços pequenos e acompanhado por boa batata cozida. Sabor simples e limpo, sem ruídos condimentares.

Alternativas na ementa de hoje: galinha corada, lombinho de porco, filetes de cherne ou fritada de peixe com arroz de feijão e pastéis de massa tenra como prato principal. Pelo telefone, pode negociar a confecção de outros petiscos ribatejanos.



 

 



Sobremesas: ambas de ovos (caseiros), açúcar e amêndoa. É inacreditável como com estes três ingredientes se pode fazer uma variedade tão grande de doces. A nossa imaginação não tem limites. A primeira chama-se Mimo e é mimosa. Imaginem um toucinho-do-céu sem abóbora-gila e estão muito perto. Delicioso. O segundo, coisa mais rústica, um bolo de tabuleiro com a amêndoa com pele grosseiramente picada, de textura muito agradável. Outras opções do dia: leite-creme, farófias, pão-de-ló de Alpiarça. Uma taça de gamboas assadas no forno em quartos e com calda foi irrecusável. A época dos marmelos começou agora.


 

 


Para finalizar, biscoitos secos. Os esses, receita do cozinha Tradicional Portuguesa, da One and only Maria de Lourdes Modesto, e as ferraduras ou bolos de noiva, uns biscoitos de enxuga. Em tamanho grande, estas ferraduras eram colocadas numa folha de papel vegetal sobre uma travessa de arroz-doce que os noivos distribuíam na aldeia para participar o seu casamento. Uns dias depois, recolhiam as travessas, que traziam sempre umas moeditas para o futuro casal.

Sempre que passar por perto não deixe de experimentar. E se for preciso sair da A1 e fazer o desvio, digo-lhe que vale a pena. Assim fossem todos os nossos restaurantes.

Já agora, não deixe de visitar a Casa dos Patudos, onde viveu José Relvas. 

 

 

 Cafés e vinho 33 euros por pessoa

 

Rua Manuel Nunes Ferreira, 101

Alpiarça

2090-115

Tel 243556316

 

 

 

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