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Conversas à Mesa

Na Guarda, com os recos

Uma superchouriça

 

À procura da chouriça de carne e da morcela, chegámos quarta-feira à noite, bem tarde, à Guarda. Mortos de sono, abancámos na residencial Santos, que tem a graça de ter a muralha da cidade como parede de trás. Muito recomendável.

 

 

 

A Residencial Santos

 

Os nossos planos iniciais tinham sido todos mudados. De manhã, rumámos à aldeia de Videmonde (a 10 ou 12 km da Guarda e a mais de 10000 m de altitude), para assistir ao encher das chouriças em casa da D. Fernanda e para ver e fotografar o fumeiro da D. Lurdes. E, claro, extrair-lhes toda a informação possível. 

 

 

 

As espetadas estão nas brasas para a prova.

 

O porco usado nesta região é o dito comercial ou industrial que resulta dos cruzamentos do bísaro original com as raças de engorda ou precoces (Large White, Pietran, etc.). Correntemente, chama-se-lhe porco branco, mas a D. Lurdes chama-lhe reco. Na sua cozinha já estão penduradas as chouriças e as morcelas, a fumar. Confessa-me o seu desejo de abrir um negócio de venda de fumeiro e, quem sabe, um restaurante na sua terra. Na pocilga já crescem mais dois porquinhos para o ano. alimentados a couves, abóboras (botelhas) e batatas. "Restos não, que são para os cães."

 

 

Os recos da D. Lurdes.


As botelhas.

 

A D. Fernanda chegou há pouco do turno da noite num lar da terceira idade e praticamente não dormiu porque é dia de fazer as chouriças. A carne está temperada há 4 dias e, na lareira acesa debaixo de telha vã, prepara a “prova” para podermos decidir se está pronta para encher: espetadinhas que vão a grelhar na lareira e que comemos com pão feito pela mesma D. Fernanda no forno de lenha. Nesta região está bem viva a tradição do fumeiro, com sangue (morcelas) e sem ele (chouriças de carne). Mas se antigamente se perguntava “Então, o teu porco era bom? E se respondia “Era, tinha muita gordura!”, hoje a boa resposta será “Era, tinha muita febra”.  Com febra ou com gordura, o beirão continua a criar o seu  reco e a fazer enchidos por amor.

 

 

 

O forno do pão.


A D. Fernanda a encher chouriças.