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Conversas à Mesa

O eterno Tavares

O abre-fecha do Tavares é uma constante na sua história de muito mais de 200 anos. Mortes dos proprietários e falências são as causas top 2 do seu encerramento periódico. A compulsão para a reabertura acaba sempre por se impor, e lá vai aparecendo quem lhe devolve o esplendor. Haja esperança no fascínio que esta casa sempre exerceu, fruto quiçá do brilho das suas talhas e das suas pequenas histórias.

Ser antigo tem, algumas vezes, as suas vantagens. Ser antiga permitiu-me ter comido no Tavares Rico algumas vezes ao longo dos anos 60 e princípio dos anos 70, à mesa dos meus pais que achavam que aprender a comer fazia parte da educação das filhas. Depois tanto eu como o Tavares tivemos períodos menos abastados e só regressei às suas mesas no tempo do Peudennier, altura em que fiz com Martim Cabral um programa para a SIC sobre este restaurante. Segui depois o Tavares do Avillez e do Aimé Barroyer, grande chef e grande homem que antevejo irá encontrar rumo próprio muito em breve e a quem desejo as maiores felicidades.  



A mensagem que aqui vos quero deixar é de esperança, o Tavares há-de reabrir ainda com mais glória. Sempre foi assim e assim há-de ser, é mesmo uma afirmação de fé. Em 21 de Janeiro de 1956, O Cronista (jornal que se publicou quinzenalmente a partir 5 de Junho de 1954, passando a semanal em 4 de Fevereiro de 1956 até 1958) dedicava um artigo à Reabertura do Tavares, mais uma com novos proprietários e com um «serão literário e mundano» dos Amigos de Lisboa onde se encontravam figuras como Matos Sequeira, Ramada Curto, Luís de Oliveira Guimarães, um dos colaboradores do jornal, e até Gago Coutinho, já de provecta idade.

Como sempre, a curiosidade ia para a decoração. Como estaria? Teriam tirado as talhas douradas?

«[...]os lisboetas supuseram que a sua decoração interior seria totalmente remodelada sob os impulsos de uma ânsia de modernismo, sem carácter apropriado e inconfundível. Felizmente tal não sucedeu. O bom senso e o bom gosto, a elegância e o equilíbrio, prevaleceram sobre as inovações da arte decorativa moderna, que nem sempre são inteiramente satisfatórias.»



Prossegue O Cronista apontando que se manteve o estilo «tendo-se apenas substituído os lustres e os candelabros por outros mais ricos e mais luminosos.»

Entre os entreténs de recorte mais ou menos literário dessa noite, declamou-se um soneto intitulado Tavares Rico, do poeta Cardoso Martha (ver nota em baixo), que rezava assim:

 

«Cento e setenta e dois já vais contar.

Um parabém, e por aqui me fico.

Por ti passou muitíssimo bom “bico”

E outros muito ainda hão-de passar.

 

Quem tiver bom ouvido, há-de escutar

Nos silêncios da sala, o verbo rico

Do Eça, do Junqueiro (e até do Erico)

Que bons pitéus cá vinham empançar

 

Almas dos que lá vão! Ficai sabendo

(se é que não estais aqui e nos estais vendo)

que o Tavares abre hoje as suas portas.

 

Faço votos, ilustre companhia

Que, como outrora, saia a freguesia

Bem comida e bem bebida e a horas mortas.




O Tavares não fica por aqui. Há-de voltar em toda a sua glória e, como afirmou Martha,

Por ti passou muitíssimo bom “bico”

E outros muito ainda hão-de passar.

 

 

 

 

 

 

Tavares do tempo de Peudennier 

 

 

 

 Tavares do tempo de Aimé Barroyer

 

 

Notas

1. Para saber mais sobre a história do Tavares leia-se o rigoroso artigo de Fortunato da Câmara no Fugas (http://fugas.publico.pt/restaurantesebares/819_tavares)

2. Cardoso Martha, poeta cujo espólio literário foi parar às mãos de Natália Correia que o integrou parcialmente na Antologia de Poesia Portuguesa Erótica e Satírica : dos Cancioneiros Medievais à Actualidade, edições Afrodite, 1996)