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Conversas à Mesa

The Clove Club: Equilíbrios ousados em East London

 

Estou sentada numa mesa mesmo em frente da cozinha. Cinco ou seis lads, todos british,  todos muito jovens, movimentam-se de forma calma e pausada sob o olhar do mais velho que dá uma ajuda aqui, a ficelar os lombinhos de cordeiro, ali a cortar enchidos, além, a filetar e amanhar a cavala.








Numa das mesas, um dos rapazes descasca ervilhas verde-esmeralda e separa-as por tamanhos com microns de diferença, “porque não têm todas o mesmo tempo de cozedura”. Ao mesmo tempo tem o olho num pequeno temporizador vermelho que marca o tempo do pão: sourbread feito com um fermento nascido uma semana antes da abertura do restaurante e sempre alimentado desde aí, qual tamagochi a requerer constantemente a atenção. Quando o alarme toca, dá-lhe mais uma boa amassadela, antes de moldar vários pães com cerca de 700 g cada.  Tão saboroso que eu voltava aqui todos os dias só pelo pão com manteiga.



 


 

Numa pequena estadia em Londres, escolhi para almoçar o recém aberto (3 meses) The Clove Club, um restaurante em Shoreditch do East Side de Londres chefiado pelo escocês Isaac McHale. No dia em que lá fui, Isaac estava ausente, substituído pelo simpaticíssimo Tim Spedding, ambos originários do The Ledbury com passagem por um celebrado Pop up).




 




 


 

 
A parte velha em redor de Old Street

 

 


 

                  A parte nova da IT, em redor de Liverpool Street






Shoreditch, a área do restaurante, fica no East Side londrino, uma zona muito antiga onde cresceram recentemente moderníssimos edifícios de grandes empresas na área da Tecnologia da Informação (IT). Estas trouxeram consigo uma legião de jovens responsáveis por grandes transformações em termos restaurativos. A ida ao Clove Club pode ser complementada por uma bela passeata exploratória que inclua a parte antiga e moderna deste bairro, centrado em torno de Old Street e Liverpool Street. Esta zona tem a maior concentração de cabelos roxos por metro quadrado do mundo.





 

 Roxo e mais roxo


 



 

 

 

 



















The Paper Dress é uma loja a visitar para ver ou comprar roupa em segunda mão de marca e sem marca, óculos, carteiras, tudo vintage, ou simplesmente para tomar um bom expresso ao balcão. Mais abaixo, na mesma rua, é possível alugar uma bicicleta e pedalar pelas ruas como fazem muitos locais. Aproveite a pedalada para ver os graffiti do já famoso Banksy, cobiçado por coleccionadores de todo o mundo, e outros. No Cargo Beer Garden (Rivington Street), existe uma peça conhecida, o His Master's Voice. (Se estiver interessado nos graffiti veja aqui.) O sucesso de Banksy e outros levou a que alguns proprietários de prédios contratassem grafitters para lhes cobrirem as paredes.



Banksy

 

É neste ambiente que fica o The Clove Club, situado num lindíssimo edifício neoclássico, a antiga Townhouse, num local onde se fizeram combates de boxe entre 1955 e 1975 (daqui  se fez a primeira transmissão televisiva ao vivo em Inglaterra) e onde hoje têm lugar diversos eventos.








Decoração simples, quase monástica não fossem alguns detalhes, mesas altas e baixas de bela madeira e um chamativo bar art déco, que quebra o minimalismo, onde se preparam um bom número cocktails com direito a carta própria. O pessoal de mesa é simpático, bem humorado e descontraído.











Mas vamos então à análise da ementa. Hora de almoço pode escolher-se à carta, variando sempre os pratos do dia, mas também está disponível  o Set Menu, de degustação, que é a minha escolha para alargar o campo de prova. Uma primeira leitura da ementa mostra que, além dos produtos da época, a estrutura da refeição assentava em produtos tipicamente ingleses, como a cavala, o cordeiro, o Cheddar, a charcutaria e legumes como o pepino, o alho-francês, a hortelã. Numa primeira abordagem, tudo politicamente correcto, ainda complementado pela presença de uma horta no local. 




 

 






 

 



A abrir, conquistam-me de imediato o coração, a cabeça e o estômago dois rabanetes (variedade breakfast) no ponto do apimentado, com um molho de gochuchang, um condimento coreano, e sementes de sésamo pretas. Em simultâneo, uma espécie de nugget de galinha marinada em buttermilk e frita, ao qual não achei qualquer valor acrescentado.  A última entrada, uma picante e bem temperada salsicha de pombo com um ketchup preparado no pub Ten Bells (também de Isaac), foi do meu especial agrado, também por ver os enchidos na ordem do dia. 

 






Para intervalar entre as entradas e os pratos principais, uma belíssima salada reunindo todos os legumes primaveris crus ou cozidos sobre uma pinceladela de ricota e finas tiras de toucinho. Destaco o incrível sabor da cenoura cozida e das florinhas de alho. O ovo é de faisão.

Porém, é à medida que vêm os pratos principais, e os respectivos esclarecimentos fornecidos pelo próprio Tim ou pelo pessoal da mesa, que me vou apercebendo da originalidade e da ousadia de certas combinações.

A cavala, pescada nos mares frios da Cornualha, foi arranjada na hora, estava fresquíssima, sabor suave e bom grau de cozedura. Braseada, combinava na perfeição com o pepino muito discreto, talvez por ter sido previamente esmagado e escorrido, e com o molho de endro e o vinagre de flor de sabugueiro.

 



 

 




 

O meu preferido veio a seguir. Cada vez gosto mais de pratos minimalistas em que cada ingrediente se apresenta na perfeição máxima, inultrapassável, numa combinação que surge como única e natural. É o caso deste monocromático Alho-francês de Musselburgh com batatinhas royals de Jersey, cebolinhas avinagradas e molho de queijo Cheddar de Keens ( feito artesanalmente por esta família com leite não pasteurizado). O alho-francês, uma variedade rústica e de tamanho generoso de inverno/primavera é da região de Edimburgo. As minúsculas batatinhas, que vi escovar uma a uma com todo o carinho, são da costa de Jersey. O mar dá-lhe o sabor não-adocicado, levemente salgado até, que a cozedura com algas reforça subtilmente. A cebolinha avinagrada e o molho de queijo Cheddar dão-lhe o zing. Declinei a trufa de Verão. Perfeito. 




 

 


 

 

 

 

 A maior ousadia veio sob a forma de um falso terra-mar. Quando chega o lombo de cordeiro acompanhado por molho de anchovas, espinafres e kelp achei que o animal terrestre ia morrer afogado nos sabores marinhos. Temi o pior. Mas, surpresa, quando meti a primeira garfada à boca onde propositadamente empilhei toda a variedade existente no prato, a primeira sensação foi que todos aqueles elementos marinhos se limitavam a ser um tempero da carne, que logo seguidamente saía a ganhar. Gostei deste desafio, ultrapassado também porque o ovino tinha sabor intenso, nada lactante. Tim fala-me do gosto pela anchova deixado nas Ilhas pelos Romanos, que espalharam garum por todo o lado. É ousado e bem conseguido.

 

 

 

 

 












Sobremesas: simples mas agradáveis. A primeira, morangos com crocantes e natas, a segunda, mais interessante, com ameixas secas com um gelado feito à base do próprio caroço da fruta.

Para acabar, duas mignardises muito inglesas. Um teacake, espécie de bomboka, e um drop à base de Fernet, uma bebida que quase todas as ervas do mundo. Bah.



 

 

 








 

No fim, Tim levou-me a conhecer o pequeno "fumeiro" do restaurante com presuntos, barrigas de porco, salames e coppas. Admiráveis enchidos que provei mais tarde com mais daquele saboroso pão.

 

The Clover Club era um daqueles sítios onde eu podia comer todos os dias. Caso pudesse, claro. Mas hei-de voltar.

 

 

 

 

 





Preço do menu de degustação de almoço: £47

 

380 Old Street

Shoreditch Town Hall

+44 (0) 20 7729 6496

hello@thecloveclub.com

Londres

Estação de metro Old Street (linha preta) ou autocarro 55 (de Oxford Circle) e 243 (de Waterloo Station)