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Conversas à Mesa

A vagem de Pitágoras



Esta foto é do blog Reticências,obrigada.




É uma combinação perfeita. Sob o ponto de vista da história, não podia ser melhor. Árvores trazidas pelos árabes para o Algarve e um doce emblemático dos conventos de freiras. Quanto à mistura de sabores, a perfeição: a leve acidez aliada a uma certa pungência que contrabalança a doçura excessiva da santa aluança de açúcar e ovos. Até as cores, castanho e amarelo, desenham uma harmonia complementar. Falo-vos da alfarroba e doce de ovos.

Ceratonia siliqua de seu nome latino ou, como soi agora dizer-se, científico; alfarrobeira de seu nome comum, esta árvore pode atingir os 15 metros. Outros dos seus nomes comuns, como figueira-do-egipto e fiqueira-de-pitágoras, remetem para o carinho que por ela nutriam egípcios e gregos, que a propagaram nas suas colónias da Magna Grécia. Muito comum na área do Mediterrâneo oriental, foi introduzida no Algarve pelos árabes. Pouco exigente em termos de água, é de um extrema resiliência, suportando condições ambientais muito difíceis.
Portugal encontra-se no pódio dos produtores de alfarroba, juntamente
com a Espanha e Marrocos, pelo que é um produto que devemos utilizar comais frequência na nossa cozinha e pastelaria.
O fruto é a vagem de uma leguminosa da família das Fabaceae, ou seja, a alfarroba é prima do feijão e da ervilha e como estes rica em proteínas.
Em África e em certas partes da Ásia, a alfarroba é transformada em ração para animais. É a parte da semente que está na origem das propriedades espessantes da goma da alfarroba, usada na indústria alimentar e pelas farmacêuticas. Temos assistido recentemente à valorização do aproveitamento da polpa da vagem desta planta para farinha, destinada à pastelaria. Os libaneses extraem das vagens um espesso e escuro xarope que usam como dip para pedaços de pão pita. Recentemente, a alfarroba subiu de estatuto, sendo actualmente considerada muito saudável na alimentação humana, uma vez que substitui com vantagem o chocolate, devido ao seu baixíssimo teor de gordura. Um bolo de farinha de alfarroba ao qual se acrescente algum chocolate em pó ganha o sabor deste último, mantendo as suas características benéficas em termos de saúde.










Deixo-vos aqui dois belíssimos e boníssimos exemplos de doces de alfarroba. O primeiro é um grande bolo algarvio que me foi apresentado em pessoa pelo Tiago Bonito, chef do VilaLara. É pesado, grande e tão denso quanto uma supernova. Faz-se de um dia para o outro, levando farinha de milho e de alfarroba, chocolate em pó, muito azeite, erva-doce, banha e mel. Todos estes ingredientes são escaldados com café de cafeteira a ferver. Fica a repousar de um dia para o outro e vai a cozer nas brasas dentro de um bom tacho. Era costuma levá-lo para o campo, sendo também apreciado pelos pescadores.
Vende-se na Praça de Portimão, no Stand do Sr. Miguel Inácio Martins, onde também pode adquirir ofolar doce de Monchique, com erva-doce e mel. É delicioso e combina muito bem com uma colherada de doce de ovos, em dias festivos.






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Esta outra deliciosa versão em torta combina já a alfarroba com os ovos moles. É da Casa Velha, em Cacela Velha, casa que recomendo vivamente onde também se come um bom arroz de lingueirão e eiroses bem fritinhas.

O meu único problema é não saber se para este casamento se há-de oficiar pelos ritos do islamismo ou do catolicismo. Na dúvida, eu faço as minhas rezas ecuménicas.