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Conversas à Mesa

LÓGICA, CONSISTÊNCIA E CRIATIVIDADE NO FLORES

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Com grande espanto, vi esta semana um concurso culinário na televisão chamado Chopped. Destina-se a profissionais da área, que têm de fazer vários pratos com os ingredientes escondidos em estapafúrdias cestas mistério. Delas saem carne de cobra, gafanhotos e miolos de cabra na companhia de misturas para bolo de baunilha, marshmallows, gomas e ovos milenares chineses. Vai daí que os desgraçados dos cozinheiros têm de apresentar uma entrada, um prato principal e uma sobremesa onde este tipo de ingredientes têm obrigatoriamente de entrar, e cujo resultado sendo inimaginável já se imagina. Não é que este concurso me fez finalmente compreender por que razão cada vez encontramos mais em certos dos restaurantes combinações tão estranhas quanto estas e que resultam igualmente em desastre? Será que nesses restaurantes, os cozinheiros, coitados, são obrigados a usar cestas mistério tipo Chopped, trasformando as respetivas ementas em arraiais de disparate?

Graças ao Senhor, há quem ainda quem consiga de forma brilhante apresentar uma cozinha contemporânea, surpreendente, saborosa e lógica. É o caso do Bruno Rocha, de quem já aqui falei, e que agora está na chefia do restaurante Flores do Hotel do Bairro Alto. Comprovei-o no lançamento da nova carta, para o qual fui convidada.

Foi um evento muito divertido. Tudo começou com uma viagem no célebre eléctrico 28. A bordo, no meio de subidas e descidas, curvas e contracurvas, Bruno Rocha fez a proeza de servir um cocktail criado pelo barman do hotel e duas entradas da carta. Uma delas, a recriação da lisboeta meia desfeita, estava muito bem conseguida e, na minha opinião, reflecte na perfeição o conceito da cozinha do chef: ao grão-de-bico é retirada a película exterior, o bacalhau apresenta-se lascado e com textura impecável, a acidez do vinagre está representada por uma cebola picle, o ovo do jardim é de codorniz e apresenta a gema selmi-líquida. O resultado é um prato elegante cujos sabores originais estão agudizados e harmonicamente combinados. Para saber se estas reconstruções dos pratos originais valem ou não a pena, basta colocar-me a questão seguinte: prefiro esta versão ou a original? Neste caso, a minha resposta seria a do Bruno Rocha. Só assim vale a pena mexer em prato consagrados. Claro que cada versão faz sentido nos seus lugares naturais, um hotel de cinco estrelas ou uma taberna da Mouraria.

A inspiração do restaurante Flores é hoje a cozinha lisboeta e portuguesa com os melhores produtos, como o requeijão de Sicó usado numa das entradas, mas sempre refrescada pelas influências africanas e asiáticas, que também estão presentes em Lisboa.

Está muito bem entregue o Flores nas mãos de Bruno Rocha. Um espaço do Chiado a não perder. Daqui a dois anos, o hotel do Bairro Alto ter-se-á estendido a outros três prédios vizinhos e terá um novo restaurante no piso superior. Até lá aproveite para se deliciar com a carta de Primavera Verão no agradável restaurante Flores do rés-do-chão deste hotel do Largo Luís de Camões.

 

 

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O agradável passeio no eléctrico 28, com a meia desfeita à janela.

 

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Tártaro de tomate e orégãos: deixem o tomate brilhar e cada vez que o Verão se aproxima mais, mais ele deixa transparecer o Sol.

 

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