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Conversas à Mesa

BIFES E BITOQUES

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Infelizmente, continua a ser difícil comer um bom bife sem pagar muitíssimo, e nem sempre o preço é garantia de qualidade.

Eça de Queirós chamou-lhe expressivamente o “bife córneo”. Ele é rijo como corno, mas também pode estar cheio de nervos ou simplesmente ser mole demais e com sabores inomináveis.

Já fomos mais compostos de carnes. «Nos fins do século XIX, Lisboa ainda era abastecida com grande cópia de bois vindos das Beiras, o que permitia comer um bom bife até nas tabernórias menos recomendáveis. Não foi por falta de legislação, que sempre a tivemos apertada. Regulamentámos matadouros e açougues, mas nunca dominámos a técnica correta da separação dos cortes das carcaças. Misturamos diversas peças, agregamos músculos de texturas diferentes  e, por outro lado, passamos demais a carne.»  Na lisboa do século XIX era comum servir bifes em cafés e cervejarias, muito apreciados por famosos escritores e jornalistas a quem este alimento sanguíneo renovava as forças intelectuais. Tinham geralmente em comum o serem feitos em frigideira de ferri e iniciados na banha, com a adição posterior de manteiga.

 

Famosos foram o Bife á Inglesa, servido com batata cozida no vapor e grelhado em lume de madeira de sobro. Famoso eram os do Café Price ou Taverna Inglesa, no Cais do Sodré, notável pelos seus bifes e com muita frequência de estrangeiros.

O Bife do Montanha também era muito procurado. Esta casa, situada na Rua do Arco do Bandeira, tinha em 1860 segundo a pena do jornalista Alfredo de Morais um «culinotécnico» de nome Muma Serrière, criador de um bife com rodelas de tutano. Ficaram célebres o Bife à Jansen, da célebre cervejaria homónima, acompanhado com batata cozida, o Bife à Faustino, cozinheiro no Culinária da Avenida, na Calçada da Glória, e pai de Alfredo de Morais, coberto de presunto e servido com um tomate recheado com ovo mexido, e o Bife à Marrare, dos cafés do italiano Marrare, com um molho de manteiga e natas e batata frita em palitos.

 

O bitoque nasce de um clássico, o meio bife lisboeta, servido em frigideira de barro. Segundo Olleboma, levam alho, sal, manteiga, louro e vinho branco e acompanham com batata frita ou cozida, umas fatias de presunto demolhado e não um, mas dois ovos estrelados. A adição dos picles é posterior. Aqui fica a receita recriada com cerveja pela Justa Nobre.

 

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Hoje trago-vos um bitoque de Cascais, mais precisamente da Adega dos Bifes numa paralela ao início da Av. Adelino Amaro da Costa, vulgo Estrada da Malveira.

O restaurante não se limita a bifes e tem uma carta bastante apelativa, mas quando lá vou, é destas coisas, como sempre o bitoque do lombo porque não é fácil arranjar um tão saboroso e a batata frita é da melhor. Só embirro com o facto de abrirem um bife do lombo em dois pela altura, preferia que colocassem dois bifes da mesma espessura, mas separado.

 O restaurante tem uma esplanada agradável e grande, com sombras. O serviço é eficiente e muito simpático.

 

EndereçoR. José Florindo 757, 2750-401 Cascais

Telefone: 21 486 1295

Fecha sábados e domingos

 

Este artigo foi baseado no livro Semear Sabor, Colher Memórias, de Fátima Moura e Justa Nobre com fotos de Mário Cerdeira.

 

TRÊS DE PALAVRA DE HONRA NO ALGARVE

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Três restaurantes que não nos desiludem e que mantêm a qualidade: Um é perto de Tavira, em Santa Luzia, os outros dois no sotavento mais perto de Espanha: Castro Marim e Vila Real de Santo António

 

Não sei como é convosco, mas quando vou de férias há sempre dois ou 3 restaurantes que quero repetir, enquanto o resto do tempo pode ser ocupado com novas aquisições.

Quando não temos um local em vista para irmos comer e começamos a andar nas ruas de Albufeira, de Monte Gordo ou de Tavira à procura de sítio para jantar compreendemos que estamos feitos.  Ementas com fotos de comida são habitualmente típicas dos restaurantes de turistas que, não sabendo o que é um arroz de lingueirão, precisam da explicação visual. Habitualmente, as fotos são muito más: nem o turista percebe se aquele prato é um arroz ou uma papa, de lingueirão ou de caracóis. Isto tudo para vos dizer que compreendo os que abancam as noites todas das férias no mesmo restaurante onde já sabem que o peixe é bom e bem grelhado e onde não são mal tratados pelos empregados. Confesso que funciono por equilíbrio: quando a comida é mesmo muito muito boa, ainda aturo um ou outro mau trato.  

Passemos então aos dois primeiros restaurantes, a saber A Casa, de Santa Luzia, (ver visita anterior aqui ) e a Casa Pisa II. O terceiro é novo e ótima aquisição vinda de Castro Marim: A Tasca Medieval.

 

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Choco frito

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Polvo à lagareiro

 

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Filetes de polvo

 

A Casa é especialista em polvo e situa-se na marginal da ria em Santa Luzia, a terra do polvo. Esta nova ida 2024 a A Casa deu para experimentar mais pratos, uma vez que éramos um grupo grande.

Para começar, são sempre de pedir os rissóis de polvo e camarão. Para quem os queira ter em exclusivo, pode transformá-los em prato com um acompanhamento à escolha, eventualmente de salada russa. Seria a minha escolha porque sou fã e como os rissóis vêm quentinhos aguentam-se com um parceiro frio. Mas depois há os filetes de polvo e esses não consigo resistir-lhes. Não são os habituais tipo tentáculo aberto, são o tentáculo em versão natural com um véu tipo tempura. Tenros e saborosos, acompanham com a tal salada russa e salada verde. Há ainda o polvo abafado  (estufado), e o povo à lagareiro com batata, tudo igualmente estimável. Se ainda conseguir ter lugar para sobremesa, peça o D. Rodrigo, é mesmo muito bom. Preços convidativos com pratos a 12 euros. Serviço muito simpático. È mais agradável reservar mesa (muito recomendável a reserva) na esplanada, mas pode haver melgas. Se quiser ficar na esplanada, leve um repelente.

 

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Choco inteiro frito

 

Na Casa Pisa II como sempre a mesma coisa: o choco inteiro frito, que é muito agradável. Acompanha com boa batata frita e salada. A dose de dois médios dá para duas pessoas que não comam muito. A dose de ujm grande é 15 euros. A esplanada numa rua de Vila Real de Santo António é fresca e agradável. O serviço simpático.

 

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Plumas

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Grelhada mista

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Folhado de D. Rodrigo

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Uma das entradas, que dá acesso à

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esplanada e onde é mais fácil estacionar. 

 

A Tasca Medieval fica em Castro Marim numa moradia baixa com duas entradas e tem esplanada. Ideal para quem gosta de porco. O interior é um pouco escuro devido à decoração, pesada com as mesas em madeira escura e as tolhas bordeaux. As fotos de comida e vinhos das paredes parecem  saídas da revista Banquete dos anos 60. As carnes de porco são boas e bem grelhadas, e há a habitual confusão na designação do porco que varia entre o Preto e o Ibérico. Comeram-se as plumas (15 euros) e a grelhada mista (16 euros), ambos pratos bem compostos de carnes e acompanhamentos. As plumas trazem um ovo estrelado, que combina lindamente. A batata frita é do melhor. A salada à base de produtos muito frescos. Vem tudo bem apresentado, gostei da marmita em metal onde vinha a açorda do vizinho de mesa. A grelhada traz secretos, plumas e costelinha. De sobremesa, pedimos um folhado de D. Rodrigo. Estava fresco, mas acho preferível o D. Rodrigo em si. Tem uma boa carta de vinhos. O serviço é muito simpático.

 

A Casa

Av. Eng. Duarte Pacheco 76, Santa Luzia

Tel: 965 084 207
Fecha à quarta feira

Casa Pisa II
Rua Jornal do Algarve, 56, Vila Real de Santo António, Portugal

Tel: 939 149 665

Fecha à quarta-feira

 

 

A Tasca Medieval

  1. 25 de Abril 65, 8950-122 Castro Marim

Tel: 281 513 196

Fecha à terça-feira

A CONTINHA

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Estou numa esplanada da praça central de Vila Real de Santo António, a comer a chamada qualquer coisa em vez de almoço à séria. Peço a continha, uma forma tão carinhosa e tão tuga de tratar os assuntos de dinheiro, através da sinalética da escrita no ar simulando o uso da caneta (temos de substituir isto por uma forma mais digital, tal como jão fazemos o gesto de discar números para nos referirmos a telefonar). O empregado chega de caneta em riste e escreve todos os itens comidos e bebidos na toalha de papel já pejada de nódoas, faz a soma e diz-me que são X euros. Esta forma sustentável de aproveitamento do papel não é a única curiosa. Gosto também especialmente das contas nas folhinhas de um daqueles bloquinhos com 7cm por 4 cm. Aqui sim, faz juz ao seu nome mais vulgarmente usado, a Continha, que ainda não se acostumou a vir à mesa em formato fatura. Lá chegaremos.

Porém, venha a conta da forma que vier, nunca deixo de a conferir quando sou eu a pagar.

 

Na minha longa vida de contas, só uma vez o restaurante se tinha esquecido de debitar um item, mas algumas vezes colocou itens a mais, sobretudo nos couverts e nas bebidas.

Na última semana, deu-se o caso de receber duas contas em restaurantes diferentes com um item debitado a mais. Eu compreendo que possa haver enganos, o que não compreendo é que nestes dois últimos casos não tenha havido qualquer pedido de desculpas. Já nos habituámos ao deficiente serviço que tem invadido os restaurantes, mas há limites.

O primeiro passou-se na Adega da Camponesa, em Cacela a Nova, no Algarve. A casa estava cheia e assim que acabámos de jantar, pedimos a conta. Como estava demorada e havia uma fila de espera, levantei-me e perguntei ao chefe da sala se podia pagar de imediato, ao que retorquiu para me dirigir ao balcão e pedir a conta da mesa 13. Lá chegada, estava uma senhora à caixa a quem pedi a conta da dita mesa. A coisa ainda demorou mas chegou e, ao conferir, verifiquei que estava uma caneca de cerveja (3 euros) a mais, e expliquei que não fora nem pedida nem bebida. A resposta foi “Então só beberam água?”. Confessei envergonhadamente a minha frugalidade em termos líquidos e pedi nova conta. “Tem de esperar” foi a resposta, uma vez que já tinha começado a fazer outra conta. Enquanto esperava, chegou a empregada que tinha atendido a nossa mesa, e pediu desculpa pelo engano. Foi rapidamente interrompida pela senhora da caixa com um brusco “Não tens nada de pedir desculpa, estas coisas acontecem”. Paguei e até deixei gratificação à empregada que, pelo tipo de serviço atabalhoado que tinha feito, dava a entender ser recente na profissão. Fiquei triste porque gosto do restaurante, mas depois deste tratamento não me apetece lá voltar. Enfim, pode ser que me lembre mais o belo do peixe do que a história da conta .

O segundo caso, deu-se hoje de manhã numa pastelaria do Cascaishopping, o Jeronymo. Pequeno-almoço, pedi uma torrada e perguntei se tinham pão integral ou de centeio, ao que o empregado respondeu que não fazia ideia, que tinham um pão branco e um escuro, era o que sabia. Calei a minha pedante curiosidade de querer saber mais do ele e pedi a torrada escura e um café. 5 euros e 20 cêntimos. Paguei mas assim que coloquei o cartão achei a conta muito grande. Perguntei ao senhor se havia engano, ao que ele de imediato respondeu que tinha posto 1,80 euros a mais de um pão com queijo. Sem nunca olhar para mim e sem mais nada dizer, devolveu-me essa quantia e começou a atender o cliente seguinte.

 

Moral das histórias no meu entender e em interrogação: os erros de contas já não merecem desculpa por estarem a ficar recorrentes? Ou tive dois azares seguidos? Qual é a vossa experiência?

NOTA Hoje em dia começa a ser vulgar receber contas com um valor de gratificação incluído. Em Portugal, a gratificação não é obrigatória, pelo que pode sempre optar pelo valor sem gratificação e não a deixar, ou deixá-la à parte.