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Conversas à Mesa

As madalenas de Proust

Les madeleines de Commercy

Em comum, arte e cozinha têm o despertar das emoções. O célebre texto de Proust sobre a madalena desfeita numa colher de chá remete-nos para esse papel despoletador de emoções. Interrogo-me, porém, como pôde Proust sentir «um delicioso prazer» e «tremer de emoção» com o sabor de migalhas de bolo misturadas numa colher de chá. A madalena é húmida por ter muita manteiga e, a menos que estivesse velha de uma semana, não é bolo para molhar. É triste pensar que uma madalena dura e seca possa ter servido a Proust para desencadear tão poderosas memórias! Mas não, o escritor esclarece-nos que esse prazer é desencadeado pelo bolo, «mas ultrapassa-o infinitamente». A madalena é apenas um leve catalisador que desencadeia emoções que nada têm a ver com o sabor. Quem sabe é o próprio acto de pegar na colher ou de a levar à boca que as desencadeia? Será então lícito concluir que para despertar emoções não são necessárias boas e frescas madalenas? Que à mesa as emoções estão mais ligadas à memória de rituais do que à qualidade dos produtos ou das técnicas? Podemos também interrogar-nos se a emoção está na alta cozinha ou simplesmente na cozinha tradicional ou caseira. Se o bolo de azeite da avó desperta emoções mais fortes e poderosas que os pratos desconstruídos dos restaurantes de famosos chefs. Esta questão da emoção ligada às memórias de sabores aparece soberbamente tratada no filme de animação Ratatouille. O célebre e temível crítico gastronómico, um homem profundamente triste e arrogante, regressa à inocência da infância quando come a ratatouille do Ratatouille. As imagens são poderosas. Só o sabor da sua infância lhe traz o sorriso de volta. Há porém, um pequeno óbice: nas nossas cozinhas não oficiam já as nossas mães e avós. As novas gerações aprenderam quase nada de cozinha e cresceram com os sabores da comida industrial. A responsabilidade da transmissão dos valores tradicionais parece ter passado para as novas gerações de chefs. Serão eles capazes de cozinhar a ratatouille de cada um de nós? E como serão as ratatouilles do futuro?

 


PS: para a semana prometo a receita das madalenas.

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