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Conversas à Mesa

O ARCO TRIUNFANTE

Vale a pena subir ao topo do Arco da Glória, sim esse mesmo, o que separa o Terreiro do Paço da Rua Augusta, cuja ascensão foi recentemente permitida pela incorporação de um elevador. Este permite chegar a uma primeira escadaria que desemboca na sala do relógio (instalado em 1941, no lado que encara a Rua Augusta), de onde parte um outra em caracol, num total de pouco mais de 40 degraus que se trepam bem. No topo, espera-nos a recompensa de uma vista panorâmica de Lisboa, que podemos apreciar comodamente amparados pelo muro que corre a toda a volta do terraço rectangular.












Do lado terra, achei curioso ver as cabecitas dos visitantes do miradouro do elevador de Santa Justa quase ao mesmo nível das nossas. Lá estão os inescapáveis Castelo de São Jorge e a Sé. Girando pela esquerda, avistamos a ponte e o Cristo Rei e, claro, o Tejo e a outra banda que, claro, é a outra banda. Encostamo-nos em familiaridade excessiva à pedra dos enormésimos pés e pernas das estátuas do Génio e do Valor, que a tal de Glória coroa em simultâneo. Do resto do arco, nada conseguimos ver. Por muito que me esticasse, não consegui sequer vislumbrar as estátuas de quatro grandes figuras da pátria: Viriato e Vasco da Gama, Marquês e Nuno Álvares Pereira, nem as do Rio Douro e do Tejo, reclinadas em cada um dos lados.











Conseguimos ver sim, olhando para baixo, a estátua equestre de D. José, actualmente perdida no meio do imenso terreiro completamente vago, tão vago que até parece desejar algum auto-de-fé que o encha de gente. O monarca e o corcel viram-nos a cara e dão-nos os traseiros, enquanto pisoteiam jesuítas e Távoras sob a forma de horrorosas serpentes. Inaugurada em 1775,  o seu pedestal exibia à época um medalhão do Carvalhão (nome pelo qual era popularmente conhecido o Marquês), imediatamente retirado com a morte de D. José, para ser reintegrado em 1833, na habitual roda do cai em graça/desgraça onde caem a maioria dos nossos políticos. Curiosamente foi Pombal quem acabou com os autos-de-fé, além de ter posto fim à escravatura.














A inauguração da estátua real foi aproveitada pelo Marquês para comemorações com grande pompa e circunstância. O evento teve um lado público, com “foguetório e vivas” ao rei, salvas de canhões vindas do Tejo, paradas militares e distribuição de vinho, pão e carnes aos populares. Dentro de portas decorreram banquetes e baile, tendo este sido aberto pelo próprio Sebastião José, volteando com a sua segunda mulher.




 

 

Veja na parte superior do Arco, a Glória coroando o Génio e o Valor. Em baixo, quatro estátuas: Viriato, Vasco da Gama, o Marquês e Nuno Álvares Pereira. as figuras laterais represntam os rios Tejo e Douro que enquadram o território dos Lusitanos. 






A despesa com dois dias de banquetes foi pantagruélica, sendo que as maiores rubricas contemplaram os doces. Em ovos, foram para cima de 4 mil dúzias, a verba do açúcar a maior alínea, o triplo dos gastos com peixe e com carne de vaca, só quase igualada pela loucura da moda, a neve que, vinda dos neveiros da serra da Estrela e da Lousã no dorso das mulas, dava origem aos gelados. Foram servidos 24 785 pães-de-ló e usaram-se 230 cocos, o que prova que o exotismo da fruta tropical se tinha já integrado nas ementas mais nobres.





 

 



 

 







Porém, a maior despesa foi com os vinhos, o dobro do gasto em açúcar. Cidra, champanhe e bordeaux, nos estrangeiros, Carcavelos, moscatel de Setúbal, Monção branco e tinto e vinhos da Madeira, de entre os nossos. Os gostos não mudaram muito, pois não?

 

 

O Arco está aberto entre as 9h e as 19h, mas a só se sobe até às 18h50. O preço é de 2,5 euros por pessoa, gratuito até aos 5 anos.

 

Sobre a inauguração da estátua, consultei Histórias de Ler e Comer, de Manuel Guimarães.

 

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