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Conversas à Mesa

CHHHHARROS FRITOS

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O que procuramos quando nos sentamos à mesa? Coisas muito diferentes. Umas vezes nem nos sentamos, só queremos ver-nos livres da sensação de estômago vazio. Temos um enorme pavor desta sensação, que tão longe está da fome (como diziam os Gato Fedorento no sketch do avião, é tão só uma larica). Milhares de anos de fome verdadeira, daquela que leva à subnutrição e à morte, conduziram-nos a isto: ao mínimo sinal, precipitamo-nos para comer. (Um à-parte para quem está fazer dieta: esta sensação de larica, que nada tem a ver com fome, até pode ser agradável).

Nessa altura o que queremos são hidratos de carbono e açúcares de libertação rápida, umas bolachas, para matar essa larica.

Outras vezes, sentamo-nos à mesa para conviver. Um menu de degustação entre amigos, ou, atualmente, muitas vezes ao lado de pessoas que nunca vimos, serve simultaneamente de refeição e de teatro. É o dois em um. Cinco, seis ou sete pratos rendem umas boas três ou quatro horas, em função da velocidade do serviço. Acabamos por sair do restaurante depois da uma, altura ideal para ir para a noite, ou para a cama, conforme a onda.

Mas há alturas em que vamos a um restaurante do qual nunca ouvimos falar para comer, porque nos disseram que se come bem, mas até sem grandes expectativas, porque estas estão muito ligadas ao mediatismo. E saímos de lá com uma experiência quase mística, como se tivéssemos passado um mês num ashram indiano. Porquê? Porque comemos com a alma, seria a resposta mais bonita, a equivalente à dos cozinheiros que cozinham sempre com o coração e com paixão. Porém, penso que o importante foi termos comido hidratos de carbono e gordura muito bem conjugados, provenientes de produtos frescos e que vão ao encontro da nossa matriz cultural. Tudo o que entra no estômago, reflecte-se no cérebro. Certos alimentos são iguais a bem estar. Se lhes juntarmos um ambiente invulgar ou a sensação de exclusividade (se houver pouca gente no mundo que possa ter esta experiência), aí o prazer escala.

 

 

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Isto tudo para lhes contar que estive num ashram em Ponta Delgada esta semana. Já há muito que não saía tão benzinho de uma mesa: almocei no Mané Cigano, um pequeníssimo restaurante propriedade dos dois irmãos Sardinha, que tudo fazem para nos ver felizes.

Quando entrei, o restaurante estava cheio, mas com gente prestes a sair. Encostei-me ao balcão e pedi o que estava à vista: pequenas iscas de fígado finamente cortadas com molho, estavam bem temperadas, sem excessos, e batatinhas rosadas, que depois percebi serem levemente picantes e de qualidade. Para beber, um copo de vinho de cheiro (também conhecido por morangueiro ou de uva americana), que um dia não são dias, e porque era servido de um enorme jarro de folha.

 

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Tendo vagado assentos, abanquei em mesa corrida, com mais uns dez que já lá estavam. Eu já sabia ao que ia, tinha sido aconselhada: os famosos chhhhharros fritos. É assim que o meu ouvido de continental captou a palavra chicharros dita por um micaelense. E assim veio uma grande dose deles. Primeiramente envolvidos em farinha de milho branca de textura um pouco mais grossa do que a habitual de trigo e depois em fritura perfeita, faziam-se acompanhar por uma mistura de feijão encarnado, orelha de reco, bacon e pézinho do mesmo animal, tudo minusculamente cortado e muito homogéneo, sem contudo perder identidade. Os peixinhos, que aqui chamaríamos carapaus, teriam uns 10/12 cm de comprimento, ideais para comer à mão, mas deixando as espinhas. Num pratinho ao lado, vinham as acidezes sob forma de picle: cebolas de curtume, para cortar a fritura. Espero que este método muito típico dos Açores não desapareça, assassinado pelo imperialismo da grelha.

 

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Depois, só mesmo para provar, veio a carne de vaca estufada (e veio de um bocadinho longe, porque a cozinha principal é numa casa fora do restaurante), num grande tacho. Estava cozinhada em lume brando até ganhar a textura de comer à colher e o molho engrossar e ganhar aquele tom castanho-avermelhado das folhas de outono, com uns olhinhos de gordura a chamarem a nossa atenção. Acompanhava com umas simples batatinhas. What else?

Para tirar a boca de lacaio, uma singela queijadinha de leite com um café.

E prontos.

 

O Mané Cigano tem, Deus seja louvado, uma ementa pequena, com pratos do dia todos os dias diferentes. O preço dos pratos ronda os 5 € 50, em doses generosas.

 

 

 

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