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Conversas à Mesa

FOUR SEASONS GRILL; UM CLÁSSICO MODERNO NO ESTORIL

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 Na primeira parte deste post vou falar-vos do jantar que fiz recentemente no Grill. Na segunda parte, não resisto a falar-vos do Hotel Palácio e da sua história. Veja o vídeo da refeição no meu Instagram Conversas à Mesa.

O Hotel Palácio é clássico sem ser vintage, isto é, não se manteve inalterado, tendo mudado o que havia a mudar sem prejudicar a experiência. O seu restaurante Four Seasons Grill,  tem o mesmo conceito, incorporando de forma muito bem conseguida e criativa,  o espirito clássico-francês, a cozinha portuguesa e os seus melhores produtos, e a modernidade.

As fotos e o vídeo são do Mário Cerdeira, Muito obrigada Mário. 

 

O JANTAR

 

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O restaurante Four Seasons Grill nasceu em 1981, por necessidade de o hotel ter um restaurante Grill, como era moda. Foi feito de raiz pelo célebre cenografista, figurinista, músico, compositor e decorador Lucien Donnat. A alcatifa era um elemento crucial da decoração que se repetia, por exemplo, nos chapéus de chuva, debaixo dos quais o trintanário trazia os clientes do carro para o restaurante. O pessoal de sala, que não o da cozinha, era a primadonna. A equipa de sala era imensa, desde o trintanário  e a senhora do bengaleiro ao maître d’hotel e ao sommelier, passando por dois sub-chefes e 12 empregados, cuja farda mudava com a estação do ano. 

 

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A célebre alcatifa de Lucien Donnat

Embora frequente o restaurante da varanda do Palácioi, não ia há muitos anos ao grill, que sofreu recentemente uma remodelação. O jantar foi uma das melhores refeições que comi nos últimos anos.Bons produtos, muitos deles DOP, ou IGP, combinados com técnicas perfeitas na grelha e criatividade na cozinha, e aliados a um serviço de sala primoroso e ativo tornaram a refeição memorável. 

 

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As manteigas e os pães 

As entradas escolhidas foram Camarão al ajillo, Vieiras marinadas em azeite Bio DOP do Norte Alentejano,aromatizado com limão IGP do Algarve e gengibre, purê de aipo e caviar imperial e Terrina de Foie Gras de Pato IGP, muito bem temperado, e acompanhado por um brioche rescendente a manteiga e uma compota de cebola-roxa. Definitivamente, a minha entrada preferida pela execução perfeita. 

O conjunto das entradas tem o que de melhor se pode desejar, desde os clássicos  caviar e foie gras, até às portuguesas amêijoas, sapateira ostras e queijo de Azeitão passando pelo presunto de bolota. 

 

 

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Vieiras com puré de aipo

 

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Camarões Al Ajilllo

 

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Foie gras e brioche

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A peça do lombo é mostrada ao cliente em cru. 

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O Chateaubriand é cuidadosamente grelhado pelo Júlio sob o nosso olhar atento...

 

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Antes de ser empratado no guéridon, o Chateaubriand é mostrada na mesa, num pequeno grelhador com carvão quente para não arrefecer. este spormenores deliciosos fazem toda a diferença. 

 

 

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Cortado à vista do cliente. 

 

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A escolha do prato principal foi mais difícil, houve que preterir o Cabrito raça serpentina IGP assado,  o Entrecôte maturado ou a Travessa de peixe e marisco e outros pratos de inspiração portuguesa à base de produtos DOP ou IGP. Recaiu no Chateaubriand, a peça central e mais nobre do lombo de vaca, cuja origem está numa homenagem a Francois René de Chateaubriand, escritor pré-romântico. De raça Mertolenga DOP e grelhado pelo Júlio, um simpático luso-cubano que domina completamente a grelha e os pontos de cozedura. Pedi a carne mal passada, mas sem sangue a escorrer, e veio tal e qual. A carne aparece à mesa num mini grelhador a carvão , para não arrefecer, sendo cortada e empratada no carrinho. Os acompanhamentos são  variados, passando pela clássica batata dauphinoise ( várias camadas sobrepostas e gratinadas)  sobre a qual se apresenta um vol-au-vent de cogumelos e foie, e um rolinho de tutano envolvido em espinafre Em vez do tradicional molho demi-glace, o bearnês, de sabor mais ligeiro.Tudo estava confeccionado na perfeição. Um prato de sabores e técnicas irrepreensíveis, cujo sucesso, como aliás o do restaurante, resulta da conjugação da cozinha, da cozinha de sala e do serviço.

 


A grelha


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Os responsáveis pela cozinha são o chef Hugo Costa e o sous-chef Rodrigo Barão da Cunha, pela sala e cozinha da sala, Tiago Freire, e pelo grill, o Júlio. na foto, o Maître d´hôtel Tiago feire e o chef da grelha, Júlio. 

 

Para sobremesa, não houve qualquer dúvida em escolher os Crepes Suzette, feitos a preceito no carrinho da sala, lançando aromas irresistiveis. Para terminar, café com mignardises: um minúsculo D. Rodrigo, um mini pastel de nata e uma tarte de amêndoa, não fosse ainda haver alguma larica. 

 

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Para acompanhar a refeição, bebi um branco -Três Bagos Lavradores de Fieoria Cabernet Sauvignon -  e um tinto - Meandro do Vale Meão  2021. 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Obrigada ao hotel Palácio por uma refeição inesquecível.

 

A HISTÓRIA DO HOTEL

 

Com o surgimento do turismo no século XIX, aparecem os Palácios, hotéis de tal forma luxuosos que a elite viajante aí encontrava as mesmas condições que tinha em casa. O hotel Palácio é um desses hotéis, um verdadeiro monumento. Primeiro, é lindo na arquitectura clássica intemporal e nos materiais luxuosos. Depois pela sua riquíssima história. Inaugurado em 1930, viveu a sua época de glória ao longo da Segunda Guerra Mundial. Além das famílias reais expulsas dos seus países, a costa do Estoril albergava um ninho de espiões de ambos os lados da guerra, judeus fugidos da nazismo em trânsito para os EUA e o jet set internacional. todos eles, passavam pelo hotel mais cedo ou mais tarde. Quantas decisões da mais relevante política, quantos segredos de Estado terão ali sido tomadas ou revelados, quantas batalhas foram ganhas ou perdidas nestes salões. A ver no hotel, a Galeria Real com fotos das figuras célebres que o freqyentaram, desde gentes da realeza às do cinema e do jet set.

 

Mas o hotel Palácio também encerra muitas histórias de pessoas comuns como eu. Em pequena, passava lá algum tempo de férias de verão com a minha mãe e a minha irmã. O meu local favorito era a piscina. Um dia, aí com os meus 11 anos, tomei coragem para subir ao trampolim de saltos dos 3 metros. Chegada lá cima, tive a sensação aterrorizadora de estar no quinto andar de um prédio. Não quis dar parte fraca, com aquela sensação que todos os adolescentes têm de que o mundo está sempre com os olhos neles, lá me forcei a mergulhar. Foi um grande triunfo. Depois em 1972, foi o casamento da minha irmã, regado a Carvalho, Ribeiro e Ferreira, um tinto do célebre armazenista que não tinha uvas mas fazia blends com vinhos comprados em várias regiões, e do qual ficou a famosa aguardente.  Umas décadas depois, foi o casamento do meu único sobrinho. Hoje em dia, frequento a super agradável varanda ao almoço, mas há muito que não ia ao Grill. Fiquei feliz por receber um convite do hotel para jantar no Grill, que sofreu várias mudanças recentemente, e que me proporcionou uma refeição inesquecível.