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Conversas à Mesa

O BRUXEDO DO HALLOWEEN

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O Halloween português é uma espécie de fast food das festividades. Tal como o Pão-por-Deus, celebrado exactamente na mesma data, marca o fim do ciclo vegetativo. Nos nossos campos, após as últimas colheitas era costume oferecer os primeiros frutos secos a quem tinha ajudado nos trabalhos. Por outro lado, era também hábito fazer acompanhar os finados, cujo dia se comemora quase em simultâneo, de algum alimento para a viagem. Surgiu a tradição de vestir as crianças com os melhores atavios e muni-las de saquitelos que iam enchendo de fruta e de frutos secos de porta em porta. Em vez de celebrarmos as nossas tradições, optámos por importar, desequilibrando a balança de pagamentos da nossa identidade.

Em vez de sermos capazes de projectar esta festa para o presente, preferimos importar o pacote já feito, com os respectivos fatos, abóboras e até jantares halloweenescos em restaurantes. Mais fácil de vender pelo marketing, o pacote completo veio enfileirar com o dia dos namorados ou valentines, que destronou o dia de Santo António, o nosso casamenteiro.

Nenhuma destas nossas festas é menos vendável do que estas americanices que importámos (qualquer que tenha sido a sua origem, celta, etc., elas vêm-nos já empacotadas via EUA, como a comida chinesa ou italiana). Mas imagine-se o que um bom marketing podia fazer com os nossos altarzinhos do Santo António, com a queima das flores de alcachofra e com as fogueiras! As vendas e o calendário comercial estariam à mesma assegurados, mas com produto nacional, que este não é só a pêra-rocha.

Comecei estas linhas com uma comparação entre as festas e a comida. Porque o que fazemos nas festas também fazemos na comida. Os nossos pratos tradicionais só continuam vivos se as famílias e os continuarem a fazer. Para isso, é preciso muitas vezes adaptá-los aos tempos actuais, em vez de os continuarmos a defender intransigentemente na sua imutabilidade e acabarmos por matá-los. Nesse sentido, é necessário sermos nós próprios a recriar a tradição. Não é coisa que possamos importar. Dá trabalho, implica criatividade e investigação. Mas vale a pena defender e gozar o que é nosso em vez de ir buscar as bruxas dos outros.

 

Já antecipo um bruxedo de tartes de abóbora, melhor dizendo, de pumpkin pies. Proponho-lhe que colmate essa ânsia de abóbora, que está na época das de Inverno, com os Bolinhos dos Santos, típicos do dia de Todos eles, p. 166 da Cozinha Tradicional Portuguesa, de Maria de Lourdes Modesto.

 

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