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Conversas à Mesa

O LIXO

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Antes de chegar a casa, já toda a família me tinha prevenido que ia encontrar um país diferente. Vinha completamente preparada para a quarentena profiláctica que escolhi fazer (ninguém me falou nela no aeroporto de Lisboa quando cheguei). Aliás, depois de um mês de viagem com mais sete pessoas que não funcionaram bem em conjunto, até me estava a apetecer algum isolamento. Quando saí da Austrália já havia alguns sinais da mudança de vida. Para entrar, já era necessária a quarentena, os supermercados tinham vazias as prateleiras do papel higiénico, dos lenços de papel, do álcool. Os primeiros sinais. Mas ainda andava tudo na rua e, à excepção de alguns asiáticos, ninguém com máscaras. Os restaurantes estavam abertos, as excursões e os locais turísticos a funcionar. Dois dias antes de chegar, tinha comido uma magnífica truta arco-íris num restaurante de Cairns, no norte da Austrália, e mergulhado num recife de coral.

Com a quarentena, a mudança na minha vida foi instantânea e radical. A primeira dificuldade que tive foi com a bagagem. Duas malas, que tinham viajado nos porões de vários aviões pelo mundo, e que eu assumi puderem estar contaminadas. Optei por deixá-las na garagem. Ao outro dia começou a cegada. Munida de luvas e sacos de plástico fui buscar a roupa para lavar e alguns objectos de que tinha necessidade. Só me lembrava do vídeo da directora-geral de Saúde a deitar água da garrafa para o copo. Mexia com as luvas na mala, depois tirava a roupa para o saco de plástico e prontos, lá ficava este «contaminado». Tirava as luvas para fechar a garagem e abrir as outras portas, mas ao mesmo tempo segurava no saco «contaminado». Ao mesmo tempo, enchia as mãos de álcool de um frasco que tinha trazido para a garagem, mas para por o álcool lá contaminava eu o frasco. Esta dificuldade acompanha-me todos os dias e, às vezes, dou comigo a rir de mim mesma. Como estou em quarentena profilática, recebo a comida trazida pelos benfeitores da minha família, que a deixam à porta, só me lembro dos leprosos do Quo Vadis. Depois é a lida da desinfecção. Coloco os sacos na varanda e vou retirando as coisas dos sacos. A maioria delas enfio no lava-loiça com água e lixívia, mas há coisas que não podem ter esse tratamento. Pacotes de papel, ovos, por exemplo. Tiro os ovos dos pacotes de cartão para os colocar numa tigela, mas mexo sempre ao mesmo tempo nos ovos e no cartão. Ponho as luvas, tiro as luvas, lavo as mãos, mas entretanto já fiz uma asneira qualquer. Ir ao lixo é outra comédia. Acabo sempre a segurar em alguma coisa com as pontinhas dos dedos, como a senhora directora-geral. Se alguém tem um bom método para tratar desta situação que me diga...

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