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Conversas à Mesa

TEASE

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As novas gerações já ultrapassaram a velha atracção tuga pelos restaurantes sem decoração. Quanto mais barracão, quanto mais luzes de neon brancas acachapadas ao tecto, quanto mais paredes nuas e cadeiras desconfortáveis, quanto mais barulheira e chinfrim, mais a minha geração achava que ali o assunto principal seria a comida e que só estava a pagar por ela. Havia uma única excepção no mundo decorativo nacional: réstias de alho e de cebola penduradas do tecto e redes de pesca, ambas consideradas não-entidades no preço da refeição. Tudo o resto, era considerado supérfluo e servindo apenas para encarecer a comida.

 

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Os primeiros restaurantes não topo de gama a apresentarem decoração foram os McDonalds, que tiveram a mais valia de permitir que as novas gerações se fossem tornando mais exigentes em termos de interiores restauracionais.

Hoje o fenómeno inverteu-se, transformou-se no fenómeno TEASE. Tease tem vários significados, mas aqui vou usá-lo como uma espécie de provocação, no sentido de um chamariz divertido. Tease é também o nome de uma pequena cafetaria, daquelas que também servem almoços leves, situada na zona do Príncipe Real. Um destes dias passei por ela à hora de almoço e espreitei através da porta e das vidraças. Eu, um membro empedernido da velha geração da decoração zero, deixei-me atrair pela decoração. Qual olhares da medusa deixei-me atrair pelos vários lustres pendurados do tecto e até pelo nome do restaurante em grandes letras alinhadas na parede de trás: TEASE. Entrei e sentei-me. Mal tinha acabado de me acomodar, percorreu-me o calafrio da desconfiança: só havia mulheres, nem um homem. As mulheres são mais sensíveis à decoração do que os homens, e até são capazes de preferir comer mal num sítio bonito, que arriscar num local feio. As minhas suspeitas confirmaram-se: o Tease era um daqueles restaurantes muito bem decorados, cuja bandeira são os cupcakes, e onde até uma simples sanduíche de salmão em pão do caco se torna um pesadelo. O pão não é torrado, a quantidade de salmão não ultrapassa os 4 cm quadrados, o molho não tem sabor, como companhia traz umas batatas fritas de pacote a saberem a velho, cheias daqueles restinhos do fundo do pacote.

Felizmente, já não é possível voltar atrás ao tempo da não decoração, mas as novas gerações têm de ter muito cuidado com os critérios de escolha dos restaurantes: uma bonita decoração não é suficiente. A minha geração da decoração zero tinha razão numa coisa, o que é mesmo prioritário é a comida, o resto é um epifenómeno.

 

 

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