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Conversas à Mesa

THE PRESIDENTIAL

 

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Assim que entrei na estação de S. Bento, no Porto, e o avistei na linha 6 soube que estava irremediavelmente apaixonada. Por trás da 1413, uma locomotiva a diesel dos anos 60, alinham-se as carruagens todas azuis forte, umas já foram reais, outras só presidenciais. Sou transportada ao tempo em que tinha um garboso comboio HO que circulava nos carris de uns «Alpes suíços» construídos em família, com direito a chalets e a túnel. A organização do The Presidential tinha-me convidado para fazer o passeio ao longo do rio Douro nesta composição e com almoço a bordo pela mão do Vasco Coelho Santos, do portuense Euskalduna. O que eu ainda não sabia, mas fui sabendo aos poucos, é que a viagem seria perfeita em todos os pormenores, que quando pensamos que tudo está completo, Gonçalo Castel-Branco, o criador desta incrível iniciativa, arranja sempre mais um detalhe para nos mimar e transformar a viagem no verdadeiro luxo.

 

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 Um dos recantos do comboio

 

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 Avisos da época aos passageiros: é rpobido cuspir ou conspurcar as carruagens ou entregar-se a jogos ilícitos

 

 

É luxo poder viajar num comboio onde os nossos últimos reis também viajaram. D. Carlos, D. Amélia e os dois filhos utilizavam-no para ir e vir entre Lisboa e Vila Viçosa. Ainda hoje é visível numa das carruagens uma caixa embutida com portas de respiração destinada ao transporte dos cães de caça do rei. Foi parte deste comboio em que a família real regressou a Lisboa vinda do palácio real do Alentejo onde tinha estado perto de um mês a caçar, para depois tomar o barco para gare marítima do Terreiro do Paço e a carruagem descoberta em direcção ao Palácio das Necessidades. D. Carlos e D. Luís foram mortos a tiro no percurso. Foi neste comboio que viajaram diversos presidentes da república, com as respectivas comitivas. A locomotiva não é a vapor, como era a D. Luís, mas hoje seria uma impossibilidade por diversas razões, mas sim a tal 1413 a diesel, que permite uma viagem segura a nunca mais de 80 km/hora. O protocolo entre a The Presidential e o Museu Nacional Ferroviário limita a sua velocidade e o número de quilómetros/ano, para evitar alguma deterioração, após o magnífico restauro de 2010.

Para além do luxo destas e outras histórias que cada carruagem carrega consigo há o luxo dos pormenores que vamos descobrindo a cada momento no comboio. Garanto-vos que as quase dez horas de viagem foram recheadas de permanentes e mágicas descobertas de preciosos detalhes. O letreiro com as restrições e proibições aos passageiros inclui cuspir nas carruagens ou conspurcá-las, exercer a mendicidade e entregar-se a jogos ilícitos. Os veludos às riscas dos confortáveis assentos contrastando com as carpetes de quadrados beges e verdes, as redes da bagagem, os candeeiros art-déco e as cintas em coiro para prender as janelas de guilhotina, as madeiras preciosas e as casas de banho de várias épocas são alguns dos inúmeros pormenores que nos fazem viajar também no tempo.

 

 

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O local de transporte dos cães de caça numa das carruagens.

 

 

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As actividades estão sabiamente distribuídas por toda o percurso. Nos primeiros vinte minutos, em que ainda não se avista o Douro, estamos sentados nas nossas cabinas (a que eu viajei tinha seis lugares e porta de correr envidraçada, mas também as há tipo couchette, para duas pessoas com porta em madeira), mas entretidos com a distribuição regular de vinho do porto e de aperitivos, já confeccionados pelo chef convidado. Mas das comidas falarei num post à parte.

Os seis passageiros do compartimento brindam com o porto branco seco da Nieport, deixando-se aproximar pelo som do pouca terra, pouca terra do comboio, mas eu não me sinto a viajar no passado, mas sim num presente em que o luxo está em todos os pormenores e consiste precisamente nessa atenção completa ao detalhe. Por todo o comboio, desdobram-se uma dúzia de jovens impecavelmente fardados de preto a fazerem o serviço de «sala». Não é um trabalho fácil, correr o comboio todo, carregando bandejas cobertas de grandes copos de vidro ou pratos de comida que têm de chegar incólumes à mesa, mas é desempenhado com sucesso, ao qual acresce a atenção constante aos desejos do cliente. Estes jovens vêm directamente de uma escola de hotelaria e transmitem uns aos outros os truques do seu ofício num comboio. De vez em quando, vejo passar uma senhora que faz a verificação e reposição das casas de banho, de diferentes épocas, mas todas bonitas e em funcionamento. Nos cantos das carruagens, empilham-se livros escolhidos pela Fundação de Serralves, uma das muitas parcerias das quais vive e ganha sentido o The Presidential.

Após os vários amuse-bouche, vêm buscar-nos individualmente para nos conduzirem à nossa mesa, numa das carruagens que funcionam como sala de jantar. As mesas estão impecavelmente postas com as toalhas sem uma ruga, os talheres estilizados e os vidros brilhantes das grandes janelas a reflectirem o Douro que já se avistava. Esta tudo verde, nesta época, e as vinhas desfolhadas. Nas viagens de Outono, a paisagem terá cores completamente diferente. O rio mostra diferentes facetas, de largo a calmo, a estreito, perigoso de insidiosas correntes. Passam barcos rabelos e barcos de cruzeiros, estações de comboio embelezadas pelos azulejos onde por vezes se faz uma paragem e as mais famosas quintas dos vinhos do Douro. Cá dentro, a viagem gastronómica prossegue e enquanto vêm os cafés e as mignardises e mais dois dedos de conversa acabamos por completar 190 km e pouco mais de quatro horas e chegamos à famosa Quinta do Vesúvio, um privilégio já que ela não está aberta ao público. É a antiga casa da Ferreirinha, Antónia Ferreira, corajosa mulher que por suas mãos constrói um império em torno dos vinhos do Douro. Hoje, a quinta é da Symington, e somos gentil e generosamente recebidos na varanda com charutos, vinho do porto e de mesa e uma visita à adega onde ainda se faz uma pisa a pé.

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 A Quinta do Vesúvio, que já foi da Ferreirinha e hoje é da Symington. Só abre para os passageiros do comboio presidencial

 

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 À chegada ao Vesúvio, servem-se charutos e vinho do porto na varanda com vista para o Douro

 

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Em seguida visita-se a adega onde são  visíveis estes tonéis gigantes cheios de vinho do porto

 

 

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Um pormenor da cozinha do Vesúvio

 

 

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Os tanques de pisa das uvas. do lado esquerdo são visíveis umas portas castanhas que escondem um rudimentar WC para as senhoras que fazem a pisa (ver foto seguinte)

 

 

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Os tais WC rudimentares para as senhoras, que se escondem atrás de umas portas em madeirabade67bb-bba3-440e-b8e6-687f2e53bec4.JPG

Este WC é igualmente rudimentar, mas à vista, e destina-se a homens

 

 

  

Entretanto, o comboio faz manobras para mudar a direcção da locomotiva e, sendo quase seis horas, está na altura do regresso ao Porto. Todos novamente a bordo, ouve-se o apito que dá a partida e somos convidados a ir até ao bar, onde toca um pianista ao vivo e se servem bebidas, ou à sala de jantar, para o chá e scones, seguidos pelos óptimos enchidos da Régua, do senhor José, e por um prato de queijos. Eu aproveito para ir primeiro conhecer a cozinha e cumprimentar o chef residente, responsável pela cozinha do comboio, Vítor Areias e a sua pequena equipa. A cozinha situa-se num antigo furgão de carga e correio, ainda sendo visível o grande armário dividido em compartimentos para as cartas e outros pormenores que foram sendo colocados ao longo das épocas, visíveis em algumas das fotos que se seguem. Noutro vagão de carga, seguem tanques de água um gerador a diesel, que alimenta todo o comboio. Porém, não há possibilidade de aquecimento nem de arrefecimento, pelo que as viagens ficam suspensas entre Maio e Setembro (no Verão) e no Inverno. Era assim, com muito frio ou com muito calor, que viajavam reis e presidentes da república.

Chegados à Régua, entra uma vendedora de rebuçados que deixa a cada um saquinho desta famosa guloseima. A petiscada prossegue até praticamente ao Porto, com o magnífico pôr-do-sol a dourar ainda mais o rio que já é de ouro. Há tempo ainda para recebermos a oferta de um livrinho de capa dura com a descrição da viagem e a assinatura do chef que nos preparou o almoço e de um caldo verde desconstruído, quente para nos preparamos para a saída do comboio presidencial. Apitando, sai do túnel e entra na estação de S. Bento de onde havia saído dez horas antes. A mim pareceu-me que tinha passado dois dias, tão intensas foram essas horas. No fim da composição, para se despedir dos 56 passageiros, perfila-se toda a equipa que contribuiu nesse dia para atender a todas as nossas necessidades, às que tínhamos e às que adivinhavam por nós.

o post seguinte é sobre as refeições a bordo do The Presidential. 

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 O piano bar com música ao vivo

 

 

 

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Uma carruagem no tempo da viagem à guerra de Bernardino Machado, presidente da República.

 

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A simpática e eficiente equipa residente no fim da viagem 

 

 

 

O The Presidential tem o seguinte calendário:

 

21 e 22 de Abril – chef João Rodrigues

28 e 29 de Abril - chefs António Galapito e Bruno Caseiro

30 de Abril e 1 de Maio – chef Henrique Sá Pessoa

 

Sai da estação de S. Bento e aí regresso no mesmo dia. O preço da viagem é de 500 euros, mas pode também perguntar sobre um combinado com hotel.

Mais informação em: http://www.thepresidentialtrain.com/

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